Minha pessoa sentada ao lado do acadêmico Lucio Simões de olhar fixo em um debate no palco do Teatro Carlos Gomes, na década de 70. A nossa jovem estudantada de medicina dedicada à saúde mental criou à Associação Universitária de Psiquiatria do Espírito Santo, que surgiu logo após a Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (APES).
Eu fazia de tudo para entender o perfumar que vinha de Freud, olhos e coração em direção ao palco. Debatiam-se carinhosamente naquele instante duas abordagens diferentes: o Behaviorismo, por Bernard Rangé, e as ideias de Carl Rogers. Viriam muitas coisas mais. Estávamos apaixonados pela vontade de compreender os mistérios do consciente e do inconsciente pela primeira vez.
Em dado instante, depois de fixar os olhos nos termos das palestras, na falta do que falar, arrisquei:
- Lúcio isso deve ser genial. A gente não está entendendo nada...
Pura brincadeira, pura seriedade.
Não era bem assim. Foi um sucesso absoluto, até porque contava com o apoio dos psiquiatras Liberato Schwartz, Cesar Mendonça, Luiz Amorim, Euclides Brotto, Vitor Masiglia, Alcides Pereira da Silva, José Carlos Pereira do Valle, Alaor Queiroz de Araújo, Gilvandro Pinto Moura e Silva e o mestre de todos nós, Antônio Barcellos. Que a memória me perdoe por não me lembrar de todos.
A jovem guarda estagiava no Hospital Adauto Botelho, que era a sede dos estudantes de medicina da especialidade sob a preceptoria dos fundadores. Ali se formavam os que amavam a dor e a arte de acariciar terapeuticamente os enlouquecidos.
O médico Adauto Junqueira Botelho foi o primeiro incentivador dos novos rumos que a psiquiatria tomou a partir dos anos 40. Sensibilizado com as condições de tratamento ao doente mental, viabilizou a construção do hospital que levaria seu nome, inaugurado em 1954, que contou com a sua presença e a do ministro da Saúde de então, Miguel Couto, que endereçou a unidade para o melhor modelo possível com toda a modernidade e aparelhamento.
Desta data em diante, inicia-se um processo de humanização do tratamento dos pacientes, dirigidos por alguns dos já citados que encamparam a luta ao lado do Movimento de Trababalhadores por uma Sociedade Sem Manicômios, que era mundial.
No encontro de agora, realizado em Vitória, foram apresentados instrumentos de eficiente capacidade terapêutica, resultado das pesquisas realizadas pelos nomes já citados.
Mesmo assim, ficou claro que ainda falta muita coisa, mas muita mesmo, para conquistar um serviço realmente humanizador aos doentes mentais e que não esteja subordinado ao lucro vil e que faça jus à ciência e à civilização.
Como diz a atual presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, Licia Colodete, participante ativa dos movimentos humanitários no setor: “A luta precisa ser inteligente para funcionar. Ainda estamos no começo”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está de guarda.