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Crônica

A resistência risonha e franca do Colégio Estadual no golpe de 64

Terminado o ginásio, a maioria dos estudantes, de farda azul e cáqui, engajou-se em diversos setores da resistência. Uns entraram para a Juventude Estudantil Católica (JEC)

Publicado em 13 de Junho de 2023 às 00:25

Públicado em 

13 jun 2023 às 00:25
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Cheguei pela primeira vez ao Colégio Estadual, instituição de fino trato no Espírito Santo. Dei de cara com o “Independente”, datado de 2 de agosto de 1964, um jornal estudantil impresso, tabloide defendendo a democracia contra a ditadura assassina e covarde, cujo alvo era o próprio país.
O “Independente”. O jornalzinho era distribuído em quase todas as instituições de Vitória, a pé, de mão em mão, nas salas de aulas e comércio. O golpe sinistro foi aplicado dia primeiro de abril com a aquiescência de um bando apelidado “Gorilas”, como eram conhecidos os golpistas.
A equipe do jornal saía, depois das aulas, de loja em loja arrecadando dinheiro para a impressão.
Ao tabloide do “Estadual”.
A ideia foi de Julinho Prattes de Mattos, e pequeno elenco, que logo entraria para a Escola de Medicina da Universidade, onde foi o orador da turma. Não se podia falar a verdade sob pena de receber castigos covardes e até assassinatos sem a menor cerimônia.
Pra frente Brasil.
Terminado o ginásio, a maioria dos estudantes, de farda azul e cáqui, engajou-se em diversos setores da resistência. Uns entraram para a Juventude Estudantil Católica (JEC), formada por secundaristas com fé e compaixão, coligada à Juventude Universitária Católica (JUC), e cujo lema era “Ver, Julgar e Agir”.
O agir no caso era composto por reflexão de paz e pichação de muros: “Abaixo a ditadura”. Mesmo assim precisava fugir e depressa quando chegavam os “homi”. O arsenal para a pintura tinha a seguinte fórmula: cola de pipa e graxa de sapato, que enterrados na areia da praia endureciam e viravam pincel. Daí, era só procurar muros. Quanta corrida.
O “Independente” era ingênuo e franco. Violência, nem pensar. Reuniões à tarde, principalmente nas escadas da casa da militante Helena Resende. Pintava café com pão e manteiga, uma delícia. Estávamos bem de suprimentos de guerra.
Respeitável público vamos então ler juntos o “Independente”:
Rogério Firme escreveu: “O Mar que existe em nós”, onde faz uma inteligente comparação entre o mar e as correntes sanguíneas que nos habitam e nutrem. Telma Assis Guimarães entrou com a modéstia: “Não somos estudantes ‘metidos’”.
Chequer Hanna fala do soerguer do grêmio do colégio – União Atlética Ginasial do Espírito Santo UAGES - fechado pela ridícula repressão. O professor Arabelo do Rosário deu a maior força. A modéstia me impede de dizer que escrevi um terrível texto sobre “Ortografia”, criticando gírias. A valorosa Jussara Martins, que viria a militar nos movimentos nacionais, foi - como é - de imensa importância.
A inspetora de alunos Dona Rosa Costa deixou o teto “Uma palavra amiga de uma inspetora”. Doces palavras, doce pessoa.
O Julio Cesar – codinome Jotacê – noticiou nossas brilhantes partidas em “Reflexões Sobre a Vida”. Alfredo Noce Leite da Silva convida para criarmos movimentos intelectuais. Murilo Serpa era o redator responsável do turno da tarde. Iara Silva e Nildete Lima, da manhã. Francisco Calmon discorre sobre vocação e edição. Edgar Cabidelli também participou do grupo.
João Chequer Bou-Habib, com um texto sóbrio e sábio, foi quem desenhou as primeiras letras do “Independente” e explicou para o leitor quem e o que éramos nós
E sempre que saíamos para distribuir nos colégios e comércio o “Independente”, parávamos em frente ao Correios e tomávamos “Hidrolytol” , substância líquida, cristalina e que até hoje não sei o que é. Uma delícia.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, ainda não havia se incorporado ao grupo.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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