Há momentos em que a realidade brasileira flerta com o absurdo. E há momentos em que o absurdo perde a vergonha e fala em voz alta. Quando uma magistrada, com remuneração bruta de R$ 117,8 mil em um único mês, associa o freio em penduricalhos a um suposto “regime de escravidão”, o país não presencia apenas uma declaração infeliz. Testemunha um sintoma grave de desconexão entre parte das super elites estatais e a vida real do povo brasileiro.
Escravidão não é perder
supersalários. Escravidão não é discutir limites para benefícios acima do teto.
Escravidão não é rever privilégios pagos pelo contribuinte. Escravidão é o
trabalhador que pega três conduções por dia, enfrenta filas no SUS, convive com
escola precária para os filhos e, no fim do mês, luta para pagar aluguel, gás e
comida.
A indignação pública não nasce de inveja. Nasce da percepção de injustiça. Num país marcado por desigualdades históricas, comparar contenção de vantagens remuneratórias com escravidão não é apenas um erro retórico. É uma afronta moral.
O mais preocupante é o simbolismo institucional. Quando o debate sobre responsabilidade fiscal e moralidade pública encontra resistência corporativa, o problema deixa de ser contábil e passa a ser republicano. Porque penduricalhos não são detalhe administrativo. São expressão de um modelo de Estado que, muitas vezes, protege castas antes de proteger cidadãos.
O STF, ao impor limites, tocou em algo maior do que folhas de pagamento. Tocou no coração de uma disputa sobre o sentido do serviço público. Servir à sociedade ou servir-se dela. Uma verdadeira usurpação repugnante.
E aqui está o ponto central, não se trata de atacar o Judiciário, instituição essencial à democracia. Trata-se de defender que autoridade sem autocontenção corrói legitimidade. Privilégio sem medida produz descrédito. E descrédito institucional cobra um preço alto.
A fala da magistrada viralizou porque expôs uma ferida aberta. O Brasil real cansou de sustentar discursos blindados da realidade. O cidadão que paga impostos percebe quando o sacrifício é socializado, mas os benefícios continuam privatizados.
O escândalo não é o limite aos penduricalhos. O escândalo é alguém acreditar que ganhar menos do que R$ 117 mil por mês pode ser comparado à escravidão.
Se há uma analogia válida, é outra: escravizado é o contribuinte quando trabalha para financiar privilégios que insistem em se disfarçar de direito.
E isso, sim, revolta o povo. Como dizia o poeta: “Brasil, mostra a tua cara. Quero ver quem paga pra gente ficar assim!”