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Câmara dos Deputados faz carnaval dos privilégios

A Câmara Federal aprovou um pacote de benefícios próprios que impõe um custo anual de R$ 790 milhões aos cofres públicos, valor suficiente para produzir um impacto orçamentário maior do que a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros

Publicado em 11 de Fevereiro de 2026 às 03:00

Públicado em 

11 fev 2026 às 03:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira Pablo Lira
Enquanto milhões de brasileiros fazem contas para atravessar o carnaval, equilibrando as alegorias tributárias do IPTU, IPVA e outros, luz mais cara, contas atrasadas e o custo de vida cada vez mais pressionado, em Brasília a festa parece não conhecer calendário.
Na última semana, em apenas três horas, a Câmara Federal aprovou um pacote de medidas que impõe um custo anual de cerca de R$ 790 milhões aos cofres públicos. Um tempo menor do que o esquenta de qualquer bloco de rua, mas suficiente para produzir um impacto orçamentário maior do que a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros, ou seja, mais de 5.290 cidades.
O centro da decisão foi a elevação da verba de gabinete para R$ 165 mil mensais. O detalhe que chama atenção não é apenas o valor, mas o método. A medida pode ser implementada por ato da Mesa Diretora, sem passar pelo plenário. Um movimento silencioso, distante do debate público e confortável para quem assiste a tudo do camarote VIP do sistema político.
Votação na noite de quarta-feira dividiu a Câmara dos Deputados
Câmara dos Deputados Crédito: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
A justificativa apresentada é conhecida e soa quase como um samba-canção institucional, a saber, sem o aumento, haveria demissões. O problema é que, no mesmo pacote, foram aprovados reajustes médios de até 9% para servidores do Legislativo, gratificações que podem alcançar 100% do salário e a criação de licenças passíveis de indenização financeira acima do teto constitucional, hoje fixado em R$ 46 mil. O discurso da contenção não resiste à prática da expansão.
Quando se observa o quadro geral, a distorção salta aos olhos. Os R$ 790 milhões envolvidos superam o orçamento anual da imensa maioria das cidades brasileiras, justamente aquelas responsáveis por ofertar serviços essenciais como saúde básica, educação fundamental, assistência social e segurança urbana.
No Brasil real, prefeitos lidam diariamente com escassez, escolhas difíceis e cobranças legítimas da população. No Brasil de Brasília, a agilidade parece reservada para a autoproteção e a ampliação de privilégios.
É um carnaval ao avesso. Quem carrega o tambor, paga o ingresso, sustenta o espetáculo e fica sem água. Quem comanda o trio elétrico aumenta o cachê. Não se trata de um debate técnico menor, mas de uma escolha política clara sobre prioridades. E toda escolha política revela valores. Quando privilégios avançam em ritmo acelerado e as urgências sociais seguem em marcha lenta, o problema deixa de ser apenas fiscal. Passa a ser ético, institucional e democrático.

Pablo Lira

Pablo Lira Pablo Lira

Pós-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve às quartas

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