Acabo de ouvir e assistir ao discurso de Bolsonaro na abertura anual da ONU. Não falou nada além do que se prenunciava, guardando assim a coerência discursiva, argumentativa e ideológica que vem sendo apregoada e adotada pelo seu governo. Bolsonaro manteve, no discurso, a postura negacionista, especialmente na questão ambiental, posicionando o Brasil como vítima de complô e campanhas difamatórias em escala global. Minimiza os incêndios, nem menciona os desmatamentos e coloca o Brasil como exemplo para o mundo na questão ambiental. Índios e caboclos são os verdadeiros culpados pelos incêndios.
Ouvindo o discurso e, ao mesmo tempo, buscando interpretar a linguagem e as mensagens, curiosamente me veio à mente a oportunidade de poder interpretá-lo e associá-lo, paralelamente, a alguma metáfora, alegoria, paradoxo, mito ou dilema de conhecimento público. Foi quando me deparei com o famoso mito da caverna, do filósofo Platão.
A alegoria de Platão, constante da sua obra “A República”, que simula um diálogo com Sócrates e tem como protagonista Glauco, utiliza a figura de uma caverna para mostrar que pessoas nela confinados – Platão refere-se a escravos – acabam também confinando-se nas suas percepções, imagens e conhecimentos. E lá constroem um mundo restrito, portanto, também confinado em suas verdades espelhadas nas paredes, que lhe é próprio e julgado como a totalidade do mundo. Só que o conhecimento da verdade, segundo Platão, encontra-se fora das paredes espelhadas e ecoadas da caverna.
Platão utiliza a sua alegoria da caverna no campo da política para mostrar que o “governo perfeito”, que busca a “justiça”, é aquele que se fundamenta no “conhecimento verdadeiro”, que se encontra, logicamente, fora dos limites da caverna. Sair da “caverna”, no entanto, segundo Platão, toma o significado da busca do conhecimento verdadeiro.
É bom lembrar que Platão discorre no campo das ideias, ou seja, no campo teórico. Hoje, em verdade, nem estamos em busca do “governo perfeito”, mas num governo que seja desejável por todos, ou pelo menos pela maioria das pessoas.
O mundo nos parece caminhar, paradoxalmente contando com a ajuda da tecnologia, no sentido de cada um buscar e acomodar-se na “caverna” que mais lhe convém. E, em suas respectivas “cavernas”, imaginando-as como totalidade do mundo. Em mundos que lhes cabem nas mentes e na imaginação, criados por ecos e sombras em espaços confinados. E o nosso Brasil parece-nos caminhar para o confinamento, espelhando-se em ecos e sombras cada vez mais apartado da percepção de totalidade.