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Relações internacionais

Neutralidade de Bolsonaro pode custar caro ao Brasil

O certo é que enquanto no campo das relações internacionais o Itamaraty se aproxima mais de um posicionamento de condenação da guerra na Ucrânia, Bolsonaro, na sua diplomacia “brucutu”, aproxima-se de Venezuela, Nicarágua e Cuba

Publicado em 05 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

05 mar 2022 às 02:00
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

Presidente Jair Bolsonaro em coletiva neste domingo
O presidente Jair Bolsonaro em coletiva Crédito: Reprodução/Governo Federal
É não somente incompreensível e até vergonhosa, mas principalmente de todo inócua, a posição de neutralidade de Bolsonaro no conflito entre Rússia e Ucrânia. Além de representar uma ruptura da tradição histórica da boa diplomacia que sempre primou sobretudo pelo respeito à soberania dos povos e de países, sua fala não se alinha bem com a postura do representante do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, Romualdo Costa Filho, que, com outros 11 membros, à única exceção da Rússia, condenou os ataques injustificáveis daquele país.
Uma neutralidade inócua, inclusive sob a ótica de preservação de interesses do Brasil nas suas relações com o país agressor, e deletéria se olharmos, do outro lado, a imensa maioria de países, quase unanimidade, que de imediato rechaçaram as investidas de Putin. Posicionamento do mandatário brasileiro que colocou o Ministério de Relações Exteriores de “saia curta”, com o ministro Carlos França tendo que amenizar, tentando argumentar que Bolsonaro queria efetivamente expressar “imparcialidade” em vez de “neutralidade”.
O certo é que enquanto no campo das relações internacionais o Itamaraty se aproxima mais de um posicionamento de condenação do nefasto evento bélico, Bolsonaro, na sua diplomacia “brucutu”, aproxima-se de Venezuela, Nicarágua e Cuba. Além de demonstrar o despreparo de um chefe de nação no dia a dia da política externa.
Mesmo a China, que até o início das agressões se postava favorável à Rússia, já nesta semana tem dado sinais contrários e se colocando para ajudar no término do embate, naturalmente de olho nos enormes estragos na economia global. Até porque, convenhamos, “neutralidade” nas circunstâncias atuais pode estar mais a indicar o sentimento de uma certa condescendência do que repúdio. Uma condescendência, infelizmente, que tangencia o iníquo.
Se a “neutralidade” almejada por Bolsonaro intenta proteger sobretudo a nossa economia dos impactos da guerra, em especial o agronegócio, podemos dizer tratar-se de ledo engano. Não será Putin a nos garantir combustível, fertilizante ou mesmo mercado para os produtos brasileiros destinado ao seu país. E os impactos virão. Aliás já se mostram presentes com o preço do petróleo em alta e no seu lastro também no preço do gás. No agronegócio a preocupação mostra-se ainda maior, pois nosso país importa cerca de 25% de fertilizantes de Rússia e terá dificuldade em encontrar fornecedor substituto.

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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