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É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

Crônica: do fenômeno da impermanência

Problema sério é que nós, seres humanos, acreditamos que atribuindo palavras e conceitos às coisas, automaticamente, as domamos. (Ledo engano). Na verdade, quando cobrirmos um mistério com um rótulo, estamos, no máximo, rotulando

Publicado em 18/07/2021 às 02h00
Lua cheia na Capital
Seguimos caminho, nos despedindo do sol que se punha, e dando boas-vindas à lua que nascia. Crédito: Fernando Madeira

Num desses fins de tarde de vento fresco e céu alaranjado, eu e uma velha-nova-amiga caminhávamos por um parque ladeado por um sereníssimo lago. Ela, pessoa querida, madura e bastante vivida, me ouvia divagar sobre os anseios que acompanham a chagada da minha próxima mudança de vida - que dessa vez não será apenas geográfica, mas também emocional e física.

Falava eu, sempre agitadamente, sobre as expectativas e receios de como as coisas seriam daqui para frente, quando ela, respirando fundo, me parou de repente. Com seus olhos verdes profundos, de bailarina do mundo, invocou meu silêncio, depois pôs as mãos em meus ombros e disse calmamente: - Maria, nunca se esqueça de que nessa vida nada é permanente. – me beijou a testa e seguiu andando.

Por um instante, fiquei paralisada, fazendo minha melhor cara de “é verdade.”

Claro, nada é permanente. Aliás, dizem (e eu sempre gostei de acreditar) que nem é morte é para sempre. Tsc, nem aquele tratamento para cachear os cabelos artificialmente é, como vendem, “permanente”. (Cabelo cresce minha gente!).

Aliás, países crescem, pessoas nascem, cabelos caem e notícias envelhecem. A lua cresce, o sol nasce, as tardes caem e velhos conceitos apodrecem. Amizades crescem, amores nascem, a chuva cai e certezas esmorecem. Maré enche, maré vaza. Mundo gira, vira noite, vira dia. Barriga cheia, barriga vazia. Verão, outono, inverno, primavera. Aldeia, vila, cidade, selva. Berçário, creche, escola, faculdade, trabalho, cartão de crédito. Filho, menino, adolescente, estagiário, namorado, engenheiro, marido, pai, empreiteiro, avô, aposentado. Ela e ele, ele e ela, e outras novela. Vitrola, rádio, TV, computador, iPod, iPad. Cavalo, charrete, calhambeque, teco-teco, avião, foguete, internet. Colo, pé no chão, sapato, salto alto, calçados ortopédicos. Só a parte de baixo, biquíni cortininha, bicos para o alto, sutiã de alcinha, bicos para baixo, cirurgia. Aqui, lá, juntos, separados, juntos novamente, família, filhos, netos, bisnetos... E enquanto a bateria durar, o ponteiro do relógio não pára quieto.

Problema sério é que nós, seres humanos, acreditamos que atribuindo palavras e conceitos às coisas, automaticamente, as domamos. (Ledo engano). Na verdade, quando cobrirmos um mistério com um rótulo, estamos, no máximo, rotulando.

Ora, se tomarmos por um exemplo a palavra ‘casamento’ – (palavra esta que há séculos nos prende a um conceito estranho sobre posse, permanência, direitos, deveres e sonhos)  - o que se percebe a partir desta ideia não passa de uma raspa da realidade - ou da ponta do iceberg - já que, como bem se sabe, é impossível enquadrar a profundidade de um relacionamento.

E que dizer, então, sobre as palavras religião, profissão, residência, sucesso... – (Tsc, conceitos que, teoricamente, deveriam proporcionar “liberdade”, mas que, na prática, acabam nos mantendo encarcerados mentalmente).

Ora, por que, ao invés de lutarmos desesperadamente para saciar a necessidade de fincar o quanto antes nossas ‘estacas’ (digo, montar o acampamento e cercá-lo de letreiros luminosos estampando nossos rótulos), não ficamos confortáveis em nos deixar levar pelo movimento? Por que tamanha dificuldade em ser nômade no pensamento?

- Vem Maria, anda! - chamou minha amiga.

Despertei num susto do meu breve devaneio, apertei passo e ela continuou dizendo:

- Você sabe, é preciso reproduzir na alma o que nos entra pelos poros, pele, narinas e olhos. Porque, quer queira, quer não, fazemos parte do fenômeno. – nessa hora ela esticou os braços para o céu e continuou sussurrando - Estou falando da Natureza (incessante). Daí a necessidade de nos criamos e recriamos a cada instante.

Fique tranquila, minha querida, não lute para ser rígida. Balançando com o vento, tudo flui na vida...

E assim, ladeando o lago que serenamente fluía, seguimos caminho, nos despedindo do sol que se punha, e dando boas-vindas à lua que nascia.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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