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Marcus Vinicius Sant'Ana

Quadrilha em setembro, contrariando o calendário

Desejo aos ilustres combatentes quadrilheiros tempos futuros repletos de reconhecimento, valorização e propagação intensa da cultura junina

Publicado em 17 de Setembro de 2026 às 04:30

Públicado em 

17 set 2026 às 04:30
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana Marcus Vinicius Sant'Ana

Contrariando o calendário, entrarão em cena, nos próximos dias, as tradicionais quadrilhas.


Sim! Os agrupamentos que simbolizam os festejos juninos ainda estão, em pleno setembro, a todo vapor e ganharão o chão na final do Serraiá, considerado o maior concurso de quadrilhas juninas do Espírito Santo, que acontecerá em Feu Rosa, Serra, nos próximos dias 18 e 19 de setembro. 


A história da quadrilha é algo que, ao meu ver, representa o Brasil popular e sua capacidade de transformação artística a distintas práticas. As narrativas dizem que o embrião das quadrilhas nasceu em comunidades camponesas europeias, mas logo foram aderidas pelas cortes, ganhando ares aristocráticos. 

O bairro Feu Rosa será palco da grande final do Serraiá
O bairro Feu Rosa será palco da grande final do Serraiá Divulgação

Segundo a professora Ana Valéria Ramos Vicente, pesquisadora de dança da Universidade Federal da Paraíba, as quadrilhas chegaram ao Brasil durante o período colonial e desembarcaram em solo pindorâmico ainda com pompas de nobreza. 


Com a chegada da Família Real portuguesa, em 1808, e a proliferação dos bailes palacianos ofertados pela corte, as quadrilhas passaram a ingressar no cotidiano brasileiro, ainda reclusas a eventos palacianos.


Para quem está estranhando, sim, as quadrilhas que conhecemos têm origem nos chiques salões da nobreza, classe que costuma expurgar e subalternizar práticas do tipo. O próprio nome advém, segundo uma das versões, do francês “quadrille”, que denominava danças de quatro pares, praticadas por nobres franceses. 


O pulo do gato para se tornar um símbolo popular aconteceu após 1889. Com a Proclamação da República, elementos ligados à monarquia passaram a ser vistos pelas elites como algo ultrapassado, sendo aderido pelas camadas populares. 


As quadrilhas saíram dos salões nobres e baixaram nos chãos batidos das comunidades rurais, tornando-se em um dos principais elos da trama festiva proporcionada pelos festejos juninos. 


No Espírito Santo, eram práticas comuns na devoção popular a santos católicos, principalmente nas igrejas de Nossa Senhora da Praia, no Centro de Vitória; São Pedro, da Praia do Suá e Matriz de Santo Antônio, no bairro de mesmo nome. Posteriormente, foram engrossadas pelas levas de nordestinos que vieram para o Estado a partir da primeira década do século 20.


Mas o que eu gostaria de prosear aqui não versa sobre as quadrilhas do “olha a cobra” e dos dançarinos de ocasião, que acontecem de forma improvisada em festas juninas alheias. 


Existe um mundo em que as quadrilhas são levadas a sério e representam um pertencimento danado para certos agrupamentos, que empunham a arte da dança e da encenação como rituais identitários. 


São grupos com nomes, cores e símbolos próprios. Que se reúnem, ensaiam, ensaiam de novo, ensaiam novamente e, por vezes, dançam sob uma quantidade de holofotes que não condiz com os esforços prestados.

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Alguns vão lembrar. Em décadas passadas, muitas comunidades tinham pelo menos um grupo de quadrilha, formado por jovens do território e que se apresentavam pelas festas juninas afora. 


Eram tantos, que protagonizavam disputas que mobilizaram um mundaréu de gente, tornando-se em famosos eventos realizados no Sambão do Povo e na anual Festa de São Pedro da Praia do Suá. 


Em uma época de menos extremismos e moralismos, tais grupos ocupavam a mesma prateleira de escolas de samba, times de futebol e outros conjuntos que proporcionavam socialização, pertencimento e intenso contato com a cultura para a juventude da época.


Hoje, em um número consideravelmente menor, elas sobrevivem, mas convivem com diversas dificuldades que ainda ameaçam sua existência. Grosso modo, dividem-se em categorias como “salão”, “caipira’’ e “estilizada”. São compostas por segmentos como noivos, casais, brincantes, sinhazinhas, floristas e destaques e ofertam apresentações que demandam intenso preparo com ensaios de coreografia e preparação de figurino. 


Ao dialogar com membros atuantes, torna-se visível a dificuldade para manter tais grupos ativos, principalmente no que tange às questões financeiras. Existe, obviamente, um custo considerável para a execução das atividades, cifras que, na maioria das vezes, precisam ser geradas através de esforços dos próprios praticantes. 


Para não deixar a peteca cair, fazem rifas, campanhas de apoio e tiram dinheiro do próprio bolso, visando o nobre e dificultoso objetivo de salvaguardar a cultura junina nos dias atuais.


Desejo aos ilustres combatentes quadrilheiros tempos futuros repletos de reconhecimento, valorização e propagação intensa da cultura junina.


Final Serraiá

Data: 18 e 19 de setembro

Local: Praça das Artes, Feu Rosa - Serra

Horário: sexta-feira, das 19h às 23h30; sábado, a partir das 17h

Entrada: gratuita


Marcus Vinicius Sant'Ana

Marcus Vinicius Sant'Ana Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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