Faço coro à teoria de que a região da Grande São Pedro, em Vitória, é um país. Com cultura e identidade próprias, território definido, só faltando uma bandeira e um hino, carência que prontamente seria suprida pela legião de artistas presentes no local.
A tese habita, obviamente, o campo da ficção. Em tempos de extremismos, corro o risco de ser acusado de fomentar uma onda separatista. Nada disso. A tese é apenas uma forma romântica de exaltar a potência e pluralidade da região cuja história rodou o mundo, e que hoje é motivo de orgulho até para aqueles que não habitam seus domínios.
Vamos a ela, a história. A Grande São Pedro está localizada em uma região de Vitória que por muito tempo a urbanização passou longe. Uma área situada no noroeste da ilha, de extenso manguezal, cuja ocupação se limitava à pequena colônia da Ilha das Caieiras. A coisa começa a mudar na década de 1930, quando a Estrada do Contorno – hoje Serafim Derenzi – foi aberta com o objetivo de criar acessos ao redor de Vitória e escoar os produtos agrícolas vindos do interior.
Com os acessos facilitados, a região passou a ser destino daqueles que buscavam um pedaço de terra para construir suas moradias. Segundo Tavares Dias, em livro sobre o bairro, as primeiras habitações eram de pescadores, cerca de seis barracos, que se posicionaram próximos à Ilha das Caieiras.
No começo da década de 1970, egressos do bairro Miramar – uma ocupação, feita sobre o depósito municipal de lixo, que foi aterrada para dar lugar à rodoviária – receberam casas no bairro da Comdusa, à margem da Serafim Derenzi, como indenização.
No mesmo período, as extensas faixas de manguezal viraram destino para aqueles que buscavam edificar seus lares. As grandes levas, que chegaram em um curto espaço de tempo, eram formadas por pessoas vindas de outros estados, moradores de outros bairros da cidade que não conseguiam mais arcar com o aluguel e famílias de cidades vizinhas que buscavam na Capital a chance de melhorar de vida.
Sobre palafitas, entre o mangue e a maré, foram construindo um mundo que enfrentou as mais severas dificuldades humanas para alcançar a sobrevivência.
O nome: há quem diga que sugeriram homenagear o pai de um político, recém-falecido, de nome Pedro. Como muitos pescadores faziam parte dos pioneiros, logo surgiu a sugestão de nomear o local “São Pedro”, homenagem ao santo protetor dos que vivem do mar.
A data de fundação: a narrativa principal diz que celebra o momento da primeira vitória comunitária do bairro, quando, após comunicar ao prefeito da época que o governador visitaria a comunidade, a prefeitura ordenou aterrar a primeira rua.
De tantos nomes possíveis, foi dado a ela o nome de 4 de Setembro, data que marca a ida do governador à comunidade e que também festeja o nascimento do bairro. 4 de setembro de 1977.
As comunidades que foram surgindo ao redor de São Pedro foram sendo enumeradas como São Pedro II, São Pedro III, até ganharem nomes próprios posteriormente. Mas à medida que os barracos iam se proliferando, disputas pela posse das terras iam se acirrando. Grileiros e o poder público reivindicavam a propriedade. Destruição e incêndio de barracos aconteciam na madrugada, e um sistema de vigilância feito e organizado pelos próprios moradores passou a atuar para garantir a permanência das famílias.
Ainda na década de 1980, na região à época conhecida como São Pedro III, um depósito de lixo foi instalado e mudou para sempre a história do local. Moradores passam a fazer do lixo uma forma de sustento. Fazem parte desse cotidiano cenas desumanas, de crianças, adultos e idosos disputando restos de comidas com animais.
Uma realidade que por um tempo ficou às sombras da cidade, mas ganhou o mundo pelas lentes de Amylton de Almeida, em 1983, com o lançamento do documentário "Lugar de Toda Pobreza", que escancarou a situação calamitosa da Grande São Pedro.
A partir de salas e auditórios, o documentário foi exibido em diversos países, com destaque para a União Soviética, à época uma das potências globais. Com muitos olhares voltados para lá, o poder público precisou se mexer e organizar melhorias básicas.
Em 1991, foi a vez do papa João Paulo II visitar o local e dar mais visibilidade às fragilidades. Rezou uma missa, deixou uma doação e a frequente lembrança de sua visita.
Por décadas a Grande São Pedro seguiu entre dificuldades, assistências pontuais e luta constante. Hoje, em uma realidade distante da presente nos fragmentos da história mas ainda longe da atenção destinada às outras localidades de Vitória, a Grande São Pedro emerge como um importante polo da cidade.
Exportador de cultura e arte. Fértil de turismo e lazer. Um território que, dentre muitas qualidades, ostenta uma rica história forjada na força e na resistência de seu povo.