A morte, apesar de aterrorizante, é uma grande geradora de reflexões. Basta falecer alguém que somos, em possível instinto de vivência, bombardeados com pensamentos que questionam a existência humana e os mais simples atos do cotidiano.
Vejam vocês. Faleceu, no dia 24 do mês passado, Anísio Motta, mais conhecido como Tio Anísio, pipoqueiro do campus do Ifes de Jucutuquara. Ele ocupava a função desde 1973 e em toda sua trajetória viu a instituição mudar de nome duas vezes, foi homenageado ao nomear um cineclube e adentrou as páginas de um livro que conta a história da entidade.
A reflexão gerada em mim pela passagem de Anísio, que me levou a escrever estas linhas, veio a partir das múltiplas demonstrações póstumas de afeto que presenciei.
Vários foram os votos de alunos, ex-alunos, professores e funcionários do instituto que partilharam horas de conversas, conselhos e prosas com Tio Anísio, deixando claro algo que parece ficar cada vez mais imperceptível com o passar do tempo: a importância dos vendedores de rua na nossa construção social e na concepção de cidade.
Ao olharmos a história, diversos são os ambulantes, vendedores e mascates que figuram nas páginas da memória urbana. Para além das questões comerciais, as relações humanas e os ritos urbanos criados por eles fizeram com que tais profissionais passassem a integrar o cotidiano das cidades, tornando-se elementos primordiais para entendê-las.
Um deles, por exemplo, é o Zé das Vacas. Segundo Elmo Elton, pesquisador da cidade de Vitória, lá na segunda metade do século 19 ele tinha um botequim onde hoje está o edifício Álvares Cabral, no Centro. Antes de abrir sua birosca, rodava a cidade com duas vacas das quais tirava o leite instantaneamente para venda. Daí o apelido.
Finalizadas as vendas, logo de manhã, abria seu bar, que era ponto de encontro de pescadores e pessoas negras ligadas à Irmandade do Rosário dos Pretos. Estando quase que em tempo integral à disposição do comércio da Capital, foi, possivelmente, uma das pessoas mais conhecidas de seu tempo.
Seu botequim sumiu do mapa quando a parte baixa da cidade, antes marginalizada e morada dos desvalidos, passou a ser valorizada. Foi demolido por uma obra que visava o alargamento de uma via, parte de medidas de europeização da Capital.
Destaco, sempre que posso, a força e genialidade de Maria Saraiva. Uma mulher negra que viveu em Vitória no final do século 19 e início do século 20. Residia na rua Graciano Neves, no Centro. As poucas fontes disponíveis sobre sua história afirmam que ela começou vendendo seus quitutes – diferentes de todos os outros existentes – nas ruas, em um tabuleiro, como muitas outras mulheres negras da nossa história.
A prática, em muitas ocasiões, era herança da rica culinária africana que tomou as ruas através das escravizadas de ganho. Foi assim que Saraiva iniciou uma trajetória que terminou adentrando os grandes salões da sociedade, jantares oficiais do governo estadual e na formação de seus filhos, tendo um deles virado advogado e presidente do Flamengo, clube do Rio de Janeiro.
Era tão conhecida e conhecia tantas pessoas da cidade que estava presente em quase todos os velórios que aconteceram em seu tempo. Faleceu em 1912 e, anos depois, tornou-se nome de rua nas bases da Piedade e da Fonte Grande, onde hoje reina a Zilda, também cozinheira negra.
Existiu, ainda, a interessante figura de Vitória Bibi. Ela vendia, todas as quintas-feiras, na porta de sua casa na antiga Rua das Flores, o famosíssimo Arroz do Sacramento. O tal arroz era iguaria e antídoto ao mesmo tempo. Segundo a narrativa, era um arroz doce que quebrava feitiço, tirava mau-olhado e outras mazelas espirituais, bastante procurado pelos enfermos da época.
Hoje em dia, poucos são os vendedores de rua que ainda carregam consigo a mística da popularidade e afeto abrangente. Me vêm à cabeça no momento Davi de Jesus Pereira, o Davi do Pão de Queijo.
Com sua cesta aromática, ele parece ter o poder de se teletransportar para diversos cantos da Grande Vitória para vender sua iguaria mineira. Conversei com ele recentemente. Venceu a Covid, um atropelamento e segue nas nossas ruas compondo a trama cotidiana da metrópole.
Em tempos acelerados e dominados por aplicativos, é um fato que muitos desses personagens desaparecerão das ruas e ficarão reclusos à memória do povo. Retorno à reflexão post mortem de Tio Anísio e concluo que precisamos aproveitar enquanto há tempo.