Não, você não está perdido no calendário e também não estou perguntando como foi sua véspera de feriado [caso resida em Vila Velha]. O 22 de maio, pelo menos a data, está, sim, sepultada nos confins da semana que passou e, faço a pergunta mirando o dia seguinte, o 23, e toda simbologia e cerimônias celebrativas realizadas nele.
Explico indo ao que interessa: a história!
Em 23 de maio de 1535, Vasco Fernandes Coutinho, um fidalgo português veterano de conquistas colonizadoras na África e na Ásia, chegou à então chamada Capitania Undécima, faixa de terra a ele doada pela coroa portuguesa para desenvolvimento da colonização em terrae brasilis.
O nome “undécima” se dava pelo fato de a faixa ser a décima primeira capitania hereditária em contagem de norte a sul. Era um domingo de Pentecostes, que na tradição católica celebra-se o Divino Espírito Santo e sua descida dos céus, dando aos apóstolos e a Maria o dom de evangelizar. Movido pela fé, Vasco logo tratou de sacar o “undécima” do nome, rebatizando sua capitania de Capitania do Espírito Santo, alcunha que posteriormente também nomearia nossa federação.
Para além da mudança do nome, sujou a canela de verde, construiu igreja, abriu plantações e, principalmente, guerreou. Todo esse conjunto de ações constituiu o que, futuramente, narrativas históricas rotularam em termos como “descobrimento do Espírito Santo”, “início da história capixaba”, “fundação do Estado" e outros jargões que consideram a chegada de Vasco Fernandes Coutinho como o marco inicial da trajetória humana nesse solo que pisamos.
Quando perguntei sobre o 22 de maio, tentei, de forma metafórica, questionar sobre o cenário e, principalmente, sobre os atores que antecederam a chegada portuguesa nessas terras.
Teriam se deparado com um deserto, do ponto de vista habitacional? Uma terra virgem, sem donos, que há séculos esperava por desbravadores de além-mar? Sendo tão óbvia a resposta negativa para tais perguntas, por que ainda nos deparamos com um cenário de celebração e exaltação em torno do 23 de maio?
A razão é simples: a escrita de uma narrativa construída sob a ótica do colonizador. Nela, além de uma generalização perversa, que os coloca como um único povo, ignorando suas pluralidades, identidades e culturas, os povos originários são colocados ora como o selvagem a ser domado, ora como o inimigo feroz que impede o desenvolvimento e em diversas outras rotulações que o retratam como um semi-humano que precisou da chegada dos brancos para, à base de muito chicote e catequese, encontrar a evolução e salvação divina. Sobre ela, construiu-se uma sociedade que seguiu colocando o indígena em constante condição de subalternidade e privações, atribuindo a ele uma posição pitoresca e de marginalização social.
Quando a reflexão do pré-23 de maio é provocada — e aí que está o x da questão — não é visando apenas a uma reformulação das narrativas históricas, dando ao índigena a visibilidade e a devida posição de protagonista da terra, mas é também um ato de interpretação da história como agente explicativo do presente e propiciador de ações afirmativas necessárias para nossa sociedade. Presente e sociedade que, como disse, permanecem com severas imposições e intensos martírios aos povos indígenas.
Assim, entendendo a data não apenas como celebrativa, mas sim como reflexiva, poderemos, de diversas formas, edificar um futuro melhor para os verdadeiros donos desta terra.
Obras que abordam a história indígena capixaba:
- Coleção História dos Povos Indígenas no Espírito Santo - Julio Bentivoglio
- Espírito Santo Indígena - Vânia Maria Losada Moreira