Carnaval de 1986.
Uma multidão abarrotava as arquibancadas montadas na Reta da Penha, prestigiando a arte carnavalesca das comunidades capixabas. Foi a primeira e única vez que a famosa avenida sediou a folia.
Para aquele ano, as escolas de samba preparam uma safra de sambas das boas, uma das melhores da nossa história, e a faixa que mais fez sucesso na preparação para os desfiles foi a da turma da Gurigica. O Pega no Samba, escola do bairro, cantou e contou os Tipos Populares de Vitória, aquelas figuras folclóricas formadas por bebuns, vendedores ambulantes, andarilhos, pessoas com transtornos mentais desassistidas e outros renegados sociais que no espetáculo do cotidiano das ruas ocupavam um papel de destaque, sendo conhecidos por todos e amados por muitos.
O refrão do samba, de longe o mais famoso e conhecido da história momesca capixaba, entoava uma das mais emblemáticas participantes da memória popular da cidade: “Quero ver pegar, eu quero ver pegar! Maria Tomba Homem, o camburão vai te levar!”
Os versos de Mário do Pega e Jorge Candotti, compositores da obra, foram apenas mais um meio de eternização dos feitos de Maria Tomba Homem, a cafetina que executou com mãos pesadas a profissão que pareceu ter nascido para exercer.
São várias as narrativas sobre a origem de Maria Tomba-Homem. Berço pobre, infância difícil e contato cedo com a prostituição são infortúnios presentes em todas.
Mário Gurgel, célebre jornalista e cronista da cidade, em escrita para A Gazeta, registrou, no final da década de 1940, o que Maria representava para a cidade e o cenário em que estava imersa: “Preta. Uma bela mulher!”, “...é famosa pela força do seu pulso”, “o muito que lhe deram foi um barraco de taipa, pendido de lado”, disse.
De tamanha grandeza pitoresca, fica difícil descrever e relatar com firmeza e totalidade quem foi Maria Tomba Homem. Mas me arrisco, dizendo que foi uma mulher, negra, periférica que enfrentou todos os tipos de fragilidades impostas às pessoas iguais a ela. Apareceu para a cidade através da prostituição. Na Ilha do Príncipe, quando o local ainda era de fato uma ilha e comportava os mais severos frutos da miséria, liderou, com mãos de ferro, uma casa de prostituição.
Quando nos debruçamos sobre os detalhes históricos desse segmento, fica claro dois pontos: ele emergia como uma das alternativas de sobrevivência para mulheres periféricas; a desordem, gerada pela combinação entre bebida e meretrício, era bastante comum em espaços do meio.
Frequentes eram os casos de agressão às prostitutas ou entre os clientes, resultando em prisões e confusões generalizadas que muitas vezes terminavam em mortos e feridos. Era a ausência dela, da desordem, que diferenciava a casa de Tomba Homem das outras e dava à ela o apelido inconfundível e uma considerável autoridade no submundo urbano.
A rara presença em escândalos fazia com que o local fosse procurado por aqueles que queriam desfrutar dos prazeres da carne na surdina. Como essa turma era formada também por figurões da alta sociedade capixaba, raros também eram os incômodos de fiscalização do poder público, criando uma engrenagem que fazia com que o estabelecimento de Tomba Homem fosse o mais procurado da cidade.
E por lá não tinha gracinhas. Era pagar, desfrutar do que tinha direito e só. Caso algum excesso fosse cometido a repressão era feita à base de muitas pancadas desferidas pela própria dona do local. Ninguém encostava nas suas meninas sem consentimento. Beber demais e arranjar confusão? Nem pensar!
E os punhos negros de Maria, provavelmente movida pela compaixão de quem um dia também esteve na mesma posição, pesavam o dobro quando era pra defender aqueles que já eram injustiçados pela vida.
E, ao meu ver, tudo fica ainda mais interessante quando percebemos que tal valentia a serviço dos desvalidos não se restringia aos limites de seu bordel.
Nas extensas páginas da sua mitologia, constam histórias que narram tombada de muito homem que se atreveu a, por exemplo, bater na esposa, policiais que extorquiam prostitutas e outros desmandos comuns de uma sociedade desigual.
Edificou, assim, um imaginário vasto de episódios enredados por uma mulher que enfrentava a estrutura machista, racista e desigual da sociedade.
Na década de 1970, uma perseguição aos prostíbulos de Vitória foi travada pelo poder público. Muitos foram fechados e alguns transferidos para o bairro de São Sebastião, na Serra, que posteriormente passou a ser chamado de Novo Horizonte. Como forma de respeito àquela que tanto contribuiu para o ramo do entretenimento da cidade, o de Maria Tomba Homem foi o último a ser fechado. Há quem diga que houve até cerimônia, com direito a rituais de despedida e tudo, um Baile da Ilha Fiscal à plebe capixaba.
Segue habitando o imaginário e a memória de seus conterrâneos - experimente perguntar a algum capixaba da ilha, com mais de setenta anos, sobre a tal que a chance de ouvir algum causo é grande.
Ressurge sempre que o Pega no Samba esquenta seus tambores com o samba mais famoso da cidade.
Eterniza-se sempre que alguém pega para ler os versos de Mário Gurgel.
Vagueia a cada lance de reparação aos atingidos pelas intempéries do sistema.
“Representante fiel da raça negra, estaria hoje segregada nos Estados Unidos, no bairro do Harlem, onde vivem as pessoas de nossa cor e de nossa origem. Se vivesse na terra ressequida da África, de onde devem ter vindo os seus parentes mais distantes, poderia ser, sem nenhum favor, rainha de um povo ou sacerdotisa de uma tribo. Porém, teve na vida o pior dos destinos.”
Mário Gurgel. A Gazeta - 29/05/1949