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História do ES

Conheça a história de um herói genuinamente capixaba

Ficou, de certo modo, no esquecimento na prateleira dos heróis da historiografia nacional. Teve seu nome batizado em uma embarcação da Marinha e foi brevemente citado em uma telenovela

Públicado em 

12 jun 2025 às 03:00
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

Em nossa trajetória histórica muitos heróis foram forjados pelos seus feitos em prol das concepções coletivas criadas no desenrolar do tempo. Obviamente que a escrita histórica foi seletiva ao eternizar alguns e jogar outros nos porões do esquecimento.
Nas bandas Norte do nosso Estado existe — no presente, pois memória é vida — um que não nasceu em berço esplêndido, viveu como um qualquer, morreu tragicamente, foi eternizado pelo seu próprio povo e, no último final de semana, foi celebrado da forma mais digna possível quando se trata de um herói popular.
Vamos ao que interessa: a história!
Tudo começou com navios franceses passando pelo arquipélago de Abrolhos (Bahia) e identificando a presença de corais que não estavam registrados nas cartas náuticas internacionais, representando um perigo para a navegação. Prontamente, a Marinha Francesa notificou a Marinha de Guerra Brasileira que, da mesma forma ligeira, enviou o Cruzador Imperial Marinheiro para uma ronda de inspeção.
Era uma madrugada chuvosa do dia 7 de setembro de 1887. Ao aproximar-se do litoral de Regência, Linhares, a caminho da missão, o Cruzador chocou-se contra o pontal sul da barra do Rio Doce, sendo rapidamente engolido pelo mar bravio.
Os oficiais náufragos se agarraram aos destroços e uma pequena embarcação com doze tripulantes foi enviada à terra para pedir socorro. Antes mesmo de chegar à praia, foi igualmente destruída pela força das águas, vitimando um dos marinheiros.
Em terra, os sobreviventes, aos berros, rogaram por ajuda e foram recebidos por José da Rocha de Oliveira Primo, patrão-mor da barra do Rio Doce, que reuniu materiais próprios para o resgate, mas que se fizeram inúteis diante da escuridão da madrugada e da braveza do mar.
Só havia uma solução: esperar o dia raiar, trazendo melhor visibilidade para o resgate.
Foi justamente nos primeiros raios de sol que surgiu a figura de Bernardo José dos Santos, um pescador conhecido na região como Caboclo Bernardo, apelido dado em referência à sua ascendência indígena.
Conhecedor pleno do mar e seus movimentos, Caboclo Bernardo apanhou um cabo de aço providenciado por José da Rocha e lançou-se contra as ondas. O mar o jogou de volta à praia por quatro vezes, mas, insistente, conseguiu à quinta tentativa.
Com o auxílio do cabo, de uma pequena embarcação e de seu companheiro Faustino Antônio e outros marinheiros, Caboclo Bernardo liderou, por horas, as travessias entre o mar e a terra que resultaram no salvamento de cento e vinte e cinco vidas!
Os dias seguintes foram de completo êxtase e realização para Bernardo. A notícia de que um nativo havia salvado a vida de uma centena de oficiais da Marinha se alastrou como pólvora. Foi recebido em Vitória com direito a desfile em carro aberto e recepção do então Presidente de Província. Logo após, rumou para o Rio de Janeiro, onde se reuniu com a alta cúpula da Marinha do Brasil. Por fim, foi recebido pela princesa Isabel, que lhe condecorou com uma medalha de ouro.
Passada a euforia, Caboclo Bernardo retornou a Regência, onde seguiu sua pacata vida de pescador.
Teve um triste fim. Em 1914, aos 54 anos, foi assassinado por um vizinho, movido por ciúmes pela sua esposa.
Festa Caboclo Bernardo, um dos projetos já beneficiados pelo edital
Festa do Caboclo Bernardo Crédito: Claraboia Imagens
Ficou, de certo modo, no esquecimento na prateleira dos heróis da historiografia nacional. Teve seu nome batizado em uma embarcação da Marinha e foi brevemente citado em uma telenovela. Já em sua pequena e acolhedora Regência, não é possível dizer o mesmo. Por lá, extrapolou as fronteiras humanas e transitou entre as encruzilhadas sagradas das religiões populares. A partir de 1930, um auto teatral contando sua vida passou a ser encenado anualmente, sempre no final de semana mais próximo do dia 3 de junho, data de sua morte. A festa aumentou gradativamente e, atualmente, é um encontro nacional de grupos folclóricos, onde agrupamentos de todos os cantos do país vêm saudar o herói nacional com muito batuque, dança e encenações. Também é cultuado como uma entidade sagrada, detentora dos saberes locais e exaltado como um forte elemento formador da identidade daquele povo.
Povo! Ótima palavra definidora para a saga do caboclo.
Da origem, ao feito, à morte e, principalmente, à memória, Caboclo Bernardo representa, em essência, uma das mais belas fábulas da cosmologia popular.
*Este texto foi escrito com base nas informações retiradas de “O Caboclo Bernardo: o naufrágio do Imperial Marinheiro”, obra de Nobertino Bahiense e a mais importante contribuição bibliográfica sobre o assunto.

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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