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Tradição

Iemanjá: o dia em que a Praia de Camburi se aproxima da África

O epicentro da cerimônia é a estátua da orixá. Em cortejo, os terreiros que chegam tomam o píer em direção ao monumento que, desde as primeiras horas do amanhecer, já está cercado de velas, oferendas e devotos

Públicado em 

05 fev 2026 às 05:02
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

Sempre digo que, apesar de relativamente pequena, Vitória é uma cidade extremamente plural, sendo possível identificar diversas versões dela.
A que vivo, antagônica à concepção que sempre tentaram incessantemente implementar como única e soberana, é composta por batuques, terreiros e outros símbolos e manifestações forjadas nas dores de uma sociedade desigual em sua estrutura.
Nela, o 2 de fevereiro é uma data civilizatória. Suas cerimônias, em importância identitária, se assemelham às paradas militares, desfiles cívicos e outros rituais patrióticos, com a diferença de que reinam os tambores, cânticos ancestrais, vestimentas brancas, estandartes e, nos cortejos, os movimentos dos corpos têm o sincronismo como importante proibição.
Dia de Iemanjá
Dia de Iemanjá na Praia de Camburi Crédito: Fernando Madeira
Explico. 2 de fevereiro, na tradição católica, é dia de Nossa Senhora dos Navegantes, invocação mariana criada pela devoção daqueles que viviam da navegação. A santa, que costuma ser representada dentro de um barquinho, com direito a timão, rede de pesca e tudo, foi a escolhida por negros escravizados para exercer o sincretismo com Iemanjá.
O sincretismo foi uma estratégia desenvolvida por aqueles impedidos de praticar sua própria fé. Fingiam o culto aos santos católicos quando, na verdade, firmavam pensamento em suas entidades africanas e a assimilação entre as divindades era feita com base nas características e representações de ambas.
Como Iemanjá, em determinado momento da história, tornou-se a Rainha das Águas, aqui, em diáspora, passou a ser sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes e celebrada em 2 de fevereiro, data que acontecem grandes atos de devoção em diversas localidades do Brasil.
Por mais que alguns neguem nossa ancestralidade africana e nos coloquem como um hiato embranquecido entre a negritude da Bahia e do Rio de Janeiro, em Vitória uma grande celebração é feita na Praia de Camburi, de grandeza condizente com todo nosso passado preto e com uma história de mais de 40 anos de existência.
A manifestação tem como nome “Entrega do Balaio de Iemanjá” e sua principal referência é a Mãe Néia. Sergipana e iniciada no candomblé na cidade de Santos na década de 1960, Mãe Néia, quando chegou ao Espírito Santo, fundou o terreiro Nzo Musambu ria Kukuetu, em Bairro de Fátima, passando a cultuar Iemanjá, orixá de que é filha, na praia mais próxima. A primeira edição ocorreu em 1983 e a cada ano a Entrega do Balaio demonstra ainda mais sua força e capacidade de mobilização, se firmando como um dos mais importantes eventos do calendário da cidade.
Durante todo o dia, Camburi parece se aproximar da África, quando o mar que os separa torna-se um imenso gongá. O epicentro da cerimônia é a estátua da orixá. Em cortejo, os terreiros que chegam tomam o píer em direção ao monumento que, desde as primeiras horas do amanhecer, já está cercado de velas, oferendas e devotos.
Feitas as saudações, alguns destes terreiros, em barcos, rumam ao alto mar para entregar suas oferendas e agraciar a mãe de todas as cabeças. Outros, que ficam em terra, se posicionam ao redor da imagem ou nas areias da praia, onde realizam giras e fazem passes.
Completando a grande congregação negra, rodas de capoeira e o cortejo promovido pelo Maracatu Santa Maria fazem um fuzuê nos acessos. Seus cantos, batuques e corpos gingados reafirmam um cânone importantíssimo para aqueles que têm a crença forjada nos preceitos africanos: a indissociação entre fé e festa. Além de celebrarem a nítida ancestralidade em comum.
Tudo isso transforma Camburi em um imenso xirê, onde filhos da Rainha do Mar, com sua fé inabalável e tradicional vestimenta, realizam o único embranquecimento aceitável para essa cidade e a fazem lembrar que ela também é preta!
Odociaba!

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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