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Populismo

Autenticidade dos políticos é mais valorizada do que a competência

Acusações de inépcia ou corrupção terão pouco impacto sobre a popularidade presidencial, já déficits de autenticidade podem abalar seguidores, como a recente indicação do novo juiz do STF

Publicado em 05 de Outubro de 2020 às 11:24

Públicado em 

05 out 2020 às 11:24
Marcus André Melo

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Marcus André Melo

Jair Bolsonaro participou da abertura na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, nesta terça-feira (22)
Jair Bolsonaro participou da abertura na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, nesta terça-feira (22) Crédito: Reuters/Folhapress
O nexo entre populismo e autenticidade está bem estabelecido e é quase autoevidente; justifica e até encoraja arroubos, impropérios e incivilidades por parte do(a) líder populista. Dizer em público o que se fala em privado sinaliza congruência entre representantes e representados; conexão direta sem filtros ou mediações com o eleitorado. Ao se comportar com um uomo qualunque o(a) líder sinaliza que é uma pessoa comum, inclusive na sua ingenuidade ou até ignorância.
Pode-se observar recentemente um aumento da importância da autenticidade como valor político, pari passu com um declínio da confiança nos políticos e da participação política (ex. comparecimento às urnas). Embora tenha se tornado o mais importante, a autenticidade não é o único fator que importa: competência e integridade completam o tripé do que os eleitores percebem como boa representação política.
Na Grã-Bretanha, Will Jennings e associados investigaram o papel desses três fatores no eleitorado em geral, entre membros do parlamento, e entre jornalistas. A integridade obtêm os escores mais altos no survey realizado com estes três grupos, mas a autenticidade recebe prioridade significativamente muito mais alta no eleitorado do que nos outros grupos, e é condicional à confiança nos políticos: ela será tanto maior quanto maior a desconfiança. Se a saliência normativa da autenticidade para a representação política é a contraparte do déficit de confiança nas democracias, o populismo é a resposta política a ele.
No Brasil, podemos especular que o quadro seja ainda mais acentuado: a autenticidade é possivelmente o traço mais valorizado entre os simpatizantes de Bolsonaro, enquanto a competência não joga papel relevante. Não é à toa que Bolsonaro terceiriza a responsabilidade pela economia. Os sucessivos escândalos ciclópicos de corrupção alavancaram a saliência da integridade. Na rodada seis do World Values Survey, o Brasil ocupava o percentil 87% da distribuição das respostas à pergunta sobre se aceitar propina pode ser justificado. Isso significa que em apenas 13% dos países a preocupação com a corrupção era maior. Mas a autenticidade provavelmente importará mais dado a ubiquidade da desconfiança.
Se isso é verdade, acusações de incompetência ou envolvimento em rachadinhas terão pouco impacto sobre a popularidade presidencial: apenas a erosão gradativa da autenticidade poderá fazê-lo. O sucesso em montar uma base parlamentar poderá levar a déficits de autenticidade e mostrar que ele é apenas mais um membro da política tradicional. Sua delegação ao líder do centrão da indicação do novo juiz do STF é o mais novo passo nessa direção.

Marcus André Melo

É professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante da Universidade de Yale.

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