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Crônica

Surfando na onda do semiaberto da quarentena

Queixas mesmo só as tenho da insistência com que os intrépidos filósofos da quarentena invadem meu celular

Publicado em 04 de Julho de 2020 às 11:00

Públicado em 

04 jul 2020 às 11:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Seja pra conversar com familiares e amigos, trabalhar ou se divertir, a tecnologia é uma grande aliada na quarentena.
Tecnologia auxilia a comunicação entre familiares e amigos na quarentena Crédito: Shutterstock
Esta prisão semiaberta a que fomos condenados leva um certo jeitinho de antessala do inferno. Com benefícios, pelo menos. Senão, vejamos: nossas celas têm quartos, banheiros, sala, cozinha, escritório, computador, telefone,tv e vista para os edifícios ao redor. Tem comidinha no capricho, jornais e revistas entregues na porta, vinho, uísque, grapa uruguaia e charutos aos sábados e domingos. E um papinho semanal, pelo Facetime, com filhos, noras e netas.
Antessala do inferno coisa nenhuma. Um purgatório com janelas para a fantasia. Pode-se até respirar, mas da mesma maneira com que os porcos-espinhos transam: com muito cuidado. Viajar é proibido. E que falta faz não poder ir além de um supermercado! Mario Quintana matou a charada quando disse que viajar é mudar a roupa da alma. E a nossa roupa anda encardida pra chuchu.
Batizaram esse castigo de isolamento social. Erraram feio. Quem realmente anda isolada socialmente são as socialites que hoje vivem acorrentadas no porão de seus castelos, longe de toda a badalação. Nada de festinhas para exibir mais uma bolsa de grife, nada de Veneza para mandar foto na gôndola para todo mundo. E agora ainda têm que dividir espaço nas colunas sociais e no Instagram com cachorros, gatos e pães caseiros. Todas isoladas socialmente. Pra elas, um sofrimento do tamanho do que seria a oitava praga do Egito. Coitadas.
De minha parte, vou levando. Leio, escrevo, não faço bolos, mas asso uma pá de ovelha de deixar Mujica lambendo os beiços. Também ando espiando mais pela janela. Reparando nas rolinhas que pastam na minha rua, nos pés de cravo-da-índia que se preparam para uma nova safra e no solitário orelhão que ainda teima em existir ali na esquina.
E ainda cuido de um cachorro pré-adolescente que cultiva hábitos inapropriados. Ontem de manhã, por exemplo, flagrei o moleque comendo a Marquesa de Santos. Comeu a capa e as primeiras páginas. Salvei o miolo e a contracapa. Ele é reincidente, o safado. Já devorou metade do controle remoto da TV, mastigou até onde pôde a fieira do meu pião, a tampa da garrafa térmica, o moedor de pimenta... de tédio não posso me queixar.
Queixas, queixas mesmo só as tenho da insistência com que os intrépidos filósofos da quarentena invadem meu celular. Outro dia fui alvejado com um primor de nada a ver: “De que adianta ler se você não sabe o que é objeto direto?”. E a polícia deixa um sujeito desse solto.
E as lives? A tal das lives? Há quem goste, mas tenho uma amiga que baixou um autodecreto curto e grosso: “Lives? Nem dead”.
O bom mesmo dessa história toda é que voltei a sonhar como nunca. Outra noite acordei meio atordoado. Sonhara que, na ausência de projetos legislativos que auxiliem o combate à pandemia, um diligente parlamentar teve a brilhante ideia de propor a criação de uma comenda para homenagear a autora do mais sofisticado bolo caseiro da temporada pandêmica. Já pensou? Claro que foi só um sonho, mas... acabei dando uma ideia pra esse pessoal que está sempre confundindo trabalho com oba-oba.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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