Tenho um endereço esculpido na mente: Rua Sete de Setembro, galeria do Edifício Valverde. Era onde brotavam os grandes sucessos musicais da cidade. Esse era o endereço da loja Jairo Maia Discos. E foi exatamente ali, anos 60, que meus cabelos deram adeus ao corte Príncipe Danilo e iniciaram sua caminhada em direção aos meus ombros. Embalados pelo som de "I Wanna Hold Your Hand", a primeira música dos Beatles que ouvi. Alguns meses depois já dava pra sacudir a cabeleira. Como nos ensinaram os cinco magníficos ingleses.
Caretas sempre existiram, mas as pessoas que importavam não andavam de mãos dadas com o preconceito: meus pais e meus amigos tinham coisas mais interessantes a comentar. Nas esquinas ainda se ouvia um ou outro grito provocativo: “Cabeludo!” Mas, para compensar, o Britz Bar era feito só de amigos, risadas e chope gelado.
Mas você não faz ideia da grande importância dos longos cabelos na prática do surfe sobre trilhos. Morando na Rua Sete, indo para a escola, eu caminhava até a praça Costa Pereira para pegar a condução. E, então, seguia viagem em pé nos estribos do bonde, agarrado nos balaústres. Era perigoso? Era. Mas o vento na cara dava a segura impressão de flutuar numa prancha de surf, vestido com o uniforme azul do Salesiano imaginando que aquela onda nunca mais iria dar na praia. E o vento, sempre afetuoso e incansável, sacudindo a cabeleira.
Aos trinta e tantos anos foram-se os bondes e um bocado bom dos meus cabelos. Como acontece, inexplicavelmente, apenas os pelos do topo da cabeça. Logo aqueles que nos protegem do sol e fazem a chuva escorrer mais rapidamente. E passamos a quebrar o galho com os bonés.
Mas nada disso me atormentou, o que acontece com muitos amigos que tenho. Na verdade, eu - juro – até sou muito grato com a impertinência da natureza. Acontece que, já velho de guerra, fico bastante aliviado por não precisar resistir à tentação de banhar os pelos que me restam com aquela invenção dos capetas, aquele malfadado shampoo que os deixam da cor dos sapatinhos de Nossa Senhora. Nada contra a santa e seus sapatos, claro. E nem cheguei a considerar a ardilosa ideia de “arrastar” os pelos de uma das laterais da cabeça, fixar com um tipo qualquer de Gumex, e assim tapar o deserto no cocuruto.
Cabelos também podem se prestar para homenagens. Atualmente está em voga por estas bandas um penteado com uma temática escultural. E o que me chama mais a atenção nesta novidade é a certeza de que o alvo da homenagem é um ser mineral. E os que o homenageiam o fazem sem se dar conta desse louvável gesto. Parece-me um aplauso soprado do além.
Repare bem neste penteado que muitas mulheres e alguns homens andam exibindo pela cidade afora: uma cabeleira presa e moldada em forma arredonda no topo da cabeça. Como se fosse uma bem moldada bola de lã. Já observaram? Pois eu sinto que, inconscientemente, todos os que ostentam esse estiloso penteado prestam uma mais que merecida homenagem a silente e encantadora beleza da nossa Pedra da Cebola!