A carroceria já está quase toda lotada de futuros ministros, mas até agora, nada. Parece mentira, mas não me fizeram nem sequer uma consulta informal, não deram um mísero telefonema, nem mesmo um zap pra saber da minha disposição em entrar para a nova equipe que governará a pátria amada. Nada, nada, nada. Zero à esquerda.
Não sou lulista e muito menos bolsonarista. Mas sou um brasileiro experiente, competente e criativo. Por que não? Estou seguro de que eu poderia ser extremamente útil em muitas áreas do governo. Só a turminha lá de cima não enxerga isso.
Se coubesse a mim escolher um cargo que eu julgasse ser a “minha cara”, onde certamente eu daria um show de competência, seria o de embaixador do Brasil na França. Sério! Sei cantar a Marselhesa todinha. Adoro Charles Aznavour e Édith Piaf. Conheci de perto o emblemático presidente Charles de Gaulle. Juro!
Em sua visita ao Brasil, durante o governo de Castelo Branco, eu, meu pai e um montão de gente aplaudimos a sua passagem pela avenida Rio Branco, no Rio, a bordo do Rolls Royce conversível da Presidência da República. Pra que mais do que isso?
Mas se exigirem mais, anote aí: sou amigo do artista plástico Nena B, que vive há muitos em algum lugar da França, minha amiga Nelsa Amaral tem uma filha que mora em Paris e na cozinha faço um Carbonnade Flamande pra ninguém botar defeito. Mas Papai Noel e suas insuportáveis renas deram de ombros pra mim e passaram rindo, quase esbarrando na parabólica do terraço do prédio onde moro.
Vai ver que na fila tem um general na minha frente. Mas eu posso ser muito útil também no Ministério da Saúde. Por que não? Pare de rir! Não sou médico, mas sou filho e neto de mulheres sábias. A garganta está irritada e ainda por cima você anda tossindo muito? Com um dedo limpo faça uma embrocação com Vick Vaporub. No dia seguinte você já estará pronto pra outra. Seu filhote rói unha? Numa farmácia de produtos naturais procure por Zebra. Pincele seu líquido amarronzado nos dedos do fedelho. Amarga feito fel, mas não faz mal. Pode ser que o seu filho vá se roer de raiva. Mas as unhas, nunca mais. Sei também ajudar uma cadela a parir, estimular uma galinha a antecipar a postura e ainda sei também massagear pescoço. E tenho um anel com uma pedra verde esmeralda. Um anel de doutor.
Tenho certeza de que no Ministério da Aeronáutica eu também não faria feio. Aos quinze anos de idade, construí um foguete de pretenso longo alcance. O corpo era de uma bomba de flit, sem o reservatório do inseticida. Só o canudo de metal. Com pequenas réguas de bambu amarradas numa extremidade e estreitadas com a ajuda de um arame, fiz o bico do ONVI. A extremidade contrária foi toda preenchida com papéis laminados de cigarros e recheados com pólvora. Pronto para ir ao espaço, usei como base de lançamento uma velha cabrita (aquela que sustenta o coador de café, para quem não sabe).
Veja Também
O Dia D teria sido um grande sucesso, não fosse o excesso de pólvora de um dos lados do foguete, o que o fez voar à meia altura e depois embicar em cima da roseira, muito rara, que minha mãe havia trazido de Petrópolis. Deu ruim no foguete, na roseira e num fim de semana em que fiquei de castigo em casa. Mas duvido que qualquer outro candidato a esse ministério tenha no currículo uma experiência mais impactante do que a minha.
Pois é. Mas nem um mísero ho ho ho ganhei. É por isso que não acredito em Papai Noel.