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Crônica

Tesouros da juventude

Antes, um registro: as cenas que descrevo a seguir retratam as atrações de um imaginário parque de diversões da molecada da época. Tempo em que não existiam sites proibidos e nem redes sociais

Públicado em 

11 dez 2022 às 00:20
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Localizado no Centro de Guarapari, o Siribeira foi fundado há 75 anos
Localizado no Centro de Guarapari, o Siribeira foi fundado há 75 anos Crédito: Marcelo Moryan
Pretendia evitar os adocicados versos de Casemiro de Abreu, que o título acima parece pedir. Mas não consigo: “Ai que saudades que tenho/da aurora da minha vida/ daqueles tempos felizes/que os anos não trazem mais”. Não resisti porque, na verdade, os relatos podem parecer fortes, mas suas lembranças os tornam deliciosamente doces para quem foi garoto do interior ali pelos anos 50.
Antes, um registro: as cenas que descrevo a seguir retratam as atrações de um imaginário parque de diversões da molecada da época. Tempo em que não existiam sites proibidos e nem redes sociais.
Vamos, pois, a um pomar. Um verdadeiro paraíso para canários e coleiros, responsáveis pela trilha musical da varanda dos fundos. Longe da manjada captura tradicional, em que são usadas arapucas e alçapões, aprendi com um amigo uma forma mais ardilosa de capturar esses adoráveis artistas canoros. Não tenho ideia de sua autoria. Eis a receita: lambreque um galho fino de árvore com o visgo de uma jaca. Pronto. Passarinhos que ali pousarem ficarão presos, esperando por você. Simples assim.
Vamos agora de carnaval. Mais precisamente os bailes de carnaval do Siribeira Clube, uma fantástica referência de Guarapari, nosso mais bonito balneário. Na portaria do clube o controle de entrada e saída era do tipo mais ou menos. Para entrar, só com convite. Mas para quem já estava dentro do clube e quisesse dar uma saída para comer um churrasquinho de um ambulante, bastava deixar um documento de identidade com o porteiro. Dois amigos, um com convite e o outro sem. O convidado entrava levando no bolso a identidade do amigo. Ao dar a saidinha deixava com o porteiro a identidade do amigo, como se fora sua. Na volta exibia – mais uma vez – o seu convite. O amigo dava o nome e o porteiro abria o portão e lhe “devolvia” o documento. Não tinha erro.
Você já catou manga no quintal dos outros? Se não, você não sabe o que perdeu. A empreitada era especialidade da molecada de oito a doze anos. Pulava-se a cerca e era cada um por si e Deus por todos. Deus entrava nos pomares pra nos defender do cachorro, que vivia em um ou outro quintal, e impedir que ele levasse um bife de ouro de nossas pernas. Era tenso, mas as mangas eram doces demais.
Nas cidades do interior, quando o verão chegava, trazia os temporais e uma amostra grátis do que seria uma praia de verdade. Sem ondas, mas com correntezas sedutoras. E nada de águas claras, mas as águas barrentas não nos incomodavam. O único e impiedoso contraponto era a veemente proibição desses banhos pelas insensíveis mães. A estratégia para burlar a proibição e mergulhar fundo no prazer aquático consistia em, após o banho, com o sol da tarde ainda quente, esconder-se atrás de umas moitas, tirar o short e estendê-lo para secar. Agachados e nus fazíamos planos para a farra do banho no dia seguinte. E voltávamos para casa de roupa seca pra enganar mamãe.
Bom, pensando bem acho melhor parar por aqui e conversar com um advogado. Vai que esses “crimes” não estejam prescritos? E se assim for, eu tô frito.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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