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Copa do Mundo

Faça em casa o seu bife de ouro

Pimenta combina? Um pouquinho de molho inglês, quem sabe? Mastiga-se e engole ou deixa-se um bagacinho dourado na margem do prato? Há uma absoluta e irritante falta de informações sobre essa iguaria, ótima condutora de eletricidade

Públicado em 

18 dez 2022 às 00:10
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Carne
Bife de ouro do restaurante Nusr-Et, no Catar Crédito: Reprodução/Nusr-Et
Eu era ainda muito jovem quando conheci o Bife de Ouro. Em férias no Rio de Janeiro, a curiosidade me levou a dar uma passadinha para ver de perto o restaurante mais famoso do país. Bife de Ouro, era este o nome do restaurante do Hotel Copacabana Palace, ancorado na altura do Posto 2. O restaurante deveu ao famoso colunista social de O Globo Ibrahim Sued a sua enorme fama nacional. O restaurante, à beira da piscina do hotel, era o paraíso invejável do chamado “grand monde” nacional e internacional. Entrei, dei uma espiadinha, enchi os olhos e saí de volta ao calçadão da praia. Na memória ficou registrada a beleza do mobiliário: mesas e cadeiras de braços, todos na cor branca.
De lá pra cá, de ouro mesmo em minha vida só o meu cordão, com a imagem de São Judas Tadeu, minha aliança, o elogio sempre repetido de minha mãe (“este menino vale ouro”) e... a banana ouro.
Mas a farra dos nossos quase heróis da Copa, esnobando meio mundo no restaurante Nusr-Et, no Catar, encheu os olhos da torcida douradinha como se fosse mais um gol do Pombo. Pombo de Ouro, lógico. E ficamos todos em busca de uma orientação segura de como mastigar um filé que, nas fotos, parece bem à vontade em tão reluzente acompanhamento. A primeira ideia que me veio foi a sensação de gastura como resultado do encontro do ouro com as possíveis obturações metálicas, do comensal. Aquele “choquezinho” ligeiro, se é que ainda se lembram.
E mais dúvidas (o encantamento acelera a mente) continuam sendo mastigadas pela ávida e curiosa plateia novidadeira. Corta-se o ouro com a faca ou uma serrinha elétrica é trazida à mesa? O ouro do Catar é o de 24 quilates. Ouro de 18 quilates é indigesto, é mais picante, provoca gases? Não se tem essas informações. Pimenta combina? Um pouquinho de molho inglês, quem sabe? Mastiga-se e engole ou deixa-se um bagacinho dourado na margem do prato? Há uma absoluta e irritante falta de informações sobre essa iguaria, ótima condutora de eletricidade.
Não fui a Doha, mas desconfio que existam três outras opções no cardápio para, possivelmente, atender aos jogadores que ficaram plantados no banco de reserva, criticando os colegas: os bifes de prata, os de cobre e os de zinco. E, para delivery, imagino que haja uma elegante marmita semipreciosa com churrasquinhos espetados em palitos de tungstênio.
Ah... e o Catar, com certeza, acertaria na mosca se também servisse uma salada de brócolis com mini-rolinhos dourados de arame farpado. Bem cozidos na pressão acho que ficariam macios e saborosos. Mas antes que você vista o seu avental sugiro levar um papo com o top chef Juarez Campos sobre o beabá do áureo bifão. Juarez sabe das coisas.
Depois disso, o seu espantadíssimo fogão lhe espera.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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