debug-template
Sair
Assine
Entrar

Baunilha é um distrito localizado em Colatina, no Noroeste do Espírito Santo
Baunilha é um distrito localizado em Colatina, no Noroeste do Espírito Santo Arte | A Gazeta
Baunilha

O distrito com nome de especiaria cara e que foi berço de imigrantes no ES

A localidade situada em Colatina foi batizada pelos primeiros moradores em homenagem à fava encontrada na região; o vilarejo ainda mantém tradições, iguarias e até a antiga estação de trem

Lucas Gaviorno

Estagiário

Publicado em 17 de Maio de 2026 às 08:07

Publicado em

17 mai 2026 às 08:07

Fatalmente, em algum momento da sua vida, você já ouviu falar em baunilha? A rigor, é uma especiaria extraída de uma fava, com cheiro e sabor marcantes, altamente valorizada na confeitaria e em outras áreas gastronômicas na preparação de bolo, biscoitos, sorvetes, entre outras delícias. Até mesmo a alta perfumaria utiliza-se do extrato dela para produção de essências marcantes.


Mas nada (ou quase nada) falaremos destas aplicações, pois a baunilha em questão aqui é outra. Sai a fava, entra o distrito, mais precisamente o que está localizado na área do município de Colatina, na região Noroeste do Espírito Santo. Ainda com ar bucólico, o vilarejo guarda consigo uma história que muitos capixabas não conhecem.


E como não poderia deixar de ser, o nome da localidade tem a ver com a valorizada especiaria.


O distrito fica às margens da BR 259, rodovia federal que vai do trevo de João Neiva, ainda na BR 101, até o Estado vizinho de Minas Gerais. Apesar de ter uma pequena população — de 1.427 pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2022) —, Baunilha é bem movimentada devido ao fluxo de veículos devido às lanchonetes e restaurantes, pontos estratégicos para descanso e alimentação de motoristas que percorrem o trecho.


Mesmo sendo atualmente apenas uma singela rota de passagem, o lugar guarda uma história formada por imigrantes europeus, principalmente de origem italiana.

Antiga estação de trem em Baunilha
A antiga estação de trem de Baunilha mantém a arquitetura e atualmente é uma lanchonete TV Gazeta

Como tudo começou

Para entender melhor a história de Baunilha, a reportagem de A Gazeta procurou quem entende do assunto: o professor Victor Vago, que morou no distrito por muitos anos e faz parte de uma das famílias que fundaram o local.


Segundo ele, tudo começou no final do século XIX, época em que a Europa vivia uma grave recessão econômica, fazendo com que o governo brasileiro importasse mão de obra europeia para as lavouras de café, período simultâneo à abolição da escravatura, em que os escravos deixavam as plantações.


Inicialmente, esses imigrantes, de nacionalidades italiana, alemã, polonesa, pomerana, austríaca e outras, chegaram ao Espírito Santo por meio de navios e se instalaram em Santa Teresa, primeira cidade colonizada por italianos no país. De lá, eles se espalharam para distritos já existentes e outros que foram criados pelos próprios imigrantes, sendo: São João de Petrópolis, Barracão de Baunilha, Boapaba e Baunilha.


Ao todo, cinco famílias iniciaram o processo de colonização das terras em Baunilha.

As famílias que se instalaram foram: Crema, Vago, Bortolozzi, Morandi e Gaviorno. Em torno desse patrimônio, existiam outras, como a Martinelli, Romanha, Spairani e Sperandio

Victor Vago Professor

Casa dos irmãos Crema, localizada ao lado da antiga estação de trem do distrito de Baunilha, em Colatina
Casa dos irmãos Crema, localizada ao lado da antiga estação de trem de Baunilha Lucas Gaviorno

Naquela época, a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) passava onde hoje fica a BR 259 no distrito. Inclusive, a estação de trem que era utilizada para embarque/desembarque de passageiros, recebimento de cargas e até serviços postais permanece ativa no distrito, porém funcionando como uma lanchonete. Apenas na década de 1950 a linha do trem foi retirada do perímetro urbano. “Não sei os reais motivos, mas na década de 50 houve o fim desse transporte”, afirmou.


Vago também pontuou sobre o início da vida dos europeus que se instalaram em Baunilha. No livro ‘Nos Olhos de Remo: dos Vinhedos aos Cafezais’, de Remo Coppo, é destacada a difícil adaptação dos imigrantes. “Com certeza, o clima, a terra, toda a questão europeia aqui no Brasil era muito diferente, porque lá é frio, a terra era outra, o clima era outro”, disse.

Rua em Baunilha, Colatina
Os casarões preservam características ainda do período da chegada dos imigrantes TV Gazeta

Mas afinal, por que Baunilha?

Baunilha possui este nome devido à planta, que dá pequenos frutos chamados de favas. Elas foram descobertas na época em que os imigrantes desbravavam as terras da região.


“Eles viram que, dentro do patrimônio, naquelas matas virgens, existia a baunilha, que é uma trepadeira, como se fosse uma orquídea de flor branca com miúdo amarelo. Essa orquídea dá um fruto, como se fosse uma banana pequena, bem fina, que na verdade é a fava da baunilha. Portanto, eles puseram o nome por conta da planta de baunilha que existia no local na época da imigração”, contou o professor.

Baunilha no início do século XX
Imagem acima retrata como era Baunilha no início do século XX Cedida por Victor Vago

Divisão de terras

Após a instalação dos imigrantes na região, foi feita a divisão de terras. As áreas à direita da BR 259 de quem vai para Colatina, pertenciam às famílias aos Crema e Vago. Essas terras foram as primeiras colonizadas. Neste lado, também foram construídos a igreja católica do distrito e o cemitério, permanecentes até hoje. Diversos imigrantes que fundaram Baunilha, inclusive, estão enterrados no local.


Grande parte do cemitério e a igreja foram construídas na área da família Vago, que posteriormente doou as terras. “A doação do terreno da igreja e do cemitério, em sua grande maioria, foi feita pela família Vago. Inclusive, nós temos até as escrituras da doação do terreno do cemitério. Já a pequena parte de cima era território da família Crema", detalha Victor.

Baunilha, em Colatina, no início do século XX
Os imigrantes e primeiros moradores ajudaram na construção da igreja Cedida por Victor Vago

Fé católica

Vale destacar que os colonizadores de Baunilha eram predominantemente católicos, carregando as características do povo italiano do século XIX. Por isso, eles construíram uma capela, antes da fundação da atual igreja. Para o espaço, foi encomendada uma imagem de Nossa Senhora, que chegou ao distrito em meados de 1913 pelo trem Maria Fumaça — meio de transporte bastante utilizado à época.


A capela ficou pronta em novembro do mesmo ano e a imagem recebeu o nome de Nossa Senhora da Saúde. “Ela foi encomendada por Francisco Crema e entronizada na igreja no dia 21 de novembro de 1913, dia em que a Igreja Católica comemora a Apresentação de Nossa Senhora no Templo. A imagem é muito grande; é a única peça no mundo. De valor inestimável”.


Um tempo depois — não se sabe ao certo a data — os moradores de Baunilha decidiram demolir a pequena capela para construir a atual igreja católica do distrito.

Igreja Nossa Senhora da Saúde, em Baunilha
Igreja Nossa Senhora da Saúde, em Baunilha Lucas Gaviorno

De acordo com o professor, a devoção dos colonizadores de Baunilha a Nossa Senhora da Saúde começou ainda na Itália, quando o país europeu passou pelo grande surto da "Grande Peste" (peste bubônica).


“Eu fiz uma pesquisa e descobri que quem criou o título de Nossa Senhora da Saúde foram os portugueses. Depois que a peste-negra chega à Itália, foi construída a Basílica de Nossa Senhora da Saúde em Veneza. Foi da região do Vêneto que trouxeram essa devoção para Baunilha”, explicou.


A imagem é revestida de madeira, com um pequeno pedaço de gesso, além de ter sido pintada a fogo. No início dos anos 2010, técnicos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) restauraram a imagem, em um trabalho feito por quase um ano para a comemoração do centenário da santa em Baunilha. “É uma imagem muito bonita, com uma beleza sem igual. Singular!”, destaca Vago.

Pereveca: pão produzido somente no distrito

Além da herança italiana trazida pelos imigrantes, alguns povoados pertencentes ao território do distrito também guardam traços alemães, principalmente na culinária, como a pereveca: um pão recheado que tem o formato parecido com o rocambole, e que se tornou atração turística na região, com a Rota da Pereveca.


O nome da comida tem uma explicação: originalmente — na Alemanha — a comida se chama birewegge (em português: pão de pera), mas, após a chegada da tradição ao Espírito Santo, ela se transformou em pereveca por ser mais fácil de se pronunciar. O pão é produzido e vendido em Córrego do Santinho, uma região de Baunilha que foi ocupada por imigrantes alemães.

Pereveca, comida típica em Baunilha, Colatina
Pereveca, comida típica de Baunilha, foi criada por descendentes alemães TV Gazeta

A massa é feita à base de banana-da-terra assada e moída com amendoim, além das especiarias, como cravo, canela, noz-moscada, e até cachaça. Após o preparo, é necessário enrolar e deixar descansando por um dia antes de ir ao forno.


Além da própria delícia, a Rota da Pereveca também conta com a própria tradição e história. Na região, há empreendimentos com foco no agroturismo. A professora aposentada Horlandezan Nippes mantém um casarão preservado no Córrego do Santinho, guardando diversos utensílios da época em que os alemães se instalaram no interior de Baunilha, como ferramentas utilizadas na construção da casa, descascador de café, moedores, ferros em brasa, calculadora, caminhonete, entre outros.


Em entrevista ao programa Em Movimento, da TV Gazeta, em 2022, a moradora afirmou: "Eu tenho quase certeza de que aqui é o verdadeiro museu dos alemães que chegaram aqui no Espírito Santo e também no Brasil".

Casarão de imigrantes alemães em Córrego do Santinho, em Baunilha
Casarão de imigrantes alemães em Córrego do Santinho, em Baunilha TV Gazeta

Nascido em Baunilha

Uma curiosidade do distrito é que o ex-senador brasileiro João Calmon nasceu em Baunilha, no dia 7 de setembro de 1916. Conforme informações da Agência Senado, ele era conhecido por grandes feitos em relação à educação no país.

João Calmon (1916-1999), três vezes senador pelo Espírito Santo, nasceu em Baunilha
João Calmon (1916-1999), três vezes senador pelo Espírito Santo, nasceu em Baunilha Agência Senado

Calmon era advogado e jornalista e já presidiu a Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal por duas vezes, além de ter sido presidente da Comissão de Minas e Energia. Já no lado pessoal, foi casado com Maria Terezinha Santiago Calmon, com quem teve seis filhos. O ex-parlamentar morreu aos 82 anos, na cidade de São Paulo, no ano de 1999, e o corpo foi velado no Rio de Janeiro.


Mesmo após a morte, a casa em que nasceu e viveu segue intacta em Baunilha, ao lado do Centro Comunitário Social do distrito. 

Jorge Carreta foi outro político que nasceu em Baunilha, em 1967
Jorge Carreta foi outro político que nasceu em Baunilha Facebook

Outra personalidade que nasceu em Baunilha foi Jorge Carreta. Nascido em 7 de julho de 1967, ele chegou a exercer o cargo de vice-prefeito de Vila Velha. Carreta entrou na vida política por meio do trabalho comunitário, na Associação de Moradores de Cristóvão Colombo, também no município canela-verde, que era liderado pelo pai, José Bento Carreta, no início dos anos 1980. Ele também foi vereador de Vila Velha entre 1993 e 1996.


Entre 2017 e 2020, o político foi vice-prefeito na gestão de Max Filho. Carreta morreu no dia 6 de fevereiro deste ano, devido a um câncer.

Baunilha nos dias de hoje

Mais de um século após ser fundada, Baunilha segue resistindo ao tempo, com diversos espaços preservados, como a Igreja Nossa Senhora da Saúde e a antiga estação de trem da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Além disso, ela é uma rota importante para quem deseja chegar à região central do maior município do Noroeste capixaba em população, distante cerca de 20 quilômetros da sede do distrito.

Com muitas histórias e comidas típicas, o local é uma ótima opção para quem deseja conhecer uma região fundada por imigrantes no interior do Espírito Santo. 

+Capixapédias

O dia em que a orla de Camburi virou um picadeiro para um elefante se divertir

A cirurgia que marcou a história dos procedimentos cardíacos no ES

Escultura desaparecida do Centro de Vitória é reencontrada após mais de 40 anos

Por que Alegre se chama Alegre? A curiosa lenda em cidade do ES

Luz del Fuego: a capixaba pioneira dos "nudes" e da libertação feminina

A Gazeta integra o

Saiba mais
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados