O dia 16 de janeiro de 1971, a medicina capixaba vivia um marco histórico e que ganhou destaque na capa do jornal A Gazeta. No Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, a paciente Luiza Rodrigues, de 29 anos, moradora de Porto de Santana, em Cariacica, tornava-se a primeira pessoa no Espírito Santo a receber uma válvula cardíaca artificial.
O procedimento, até então inédito e que salvou a vida dela, foi comandado por uma jovem e determinada equipe de médicos, a maioria de capixabas e liderada pelo cirurgião Schariff Moysés.
Cirurgia história
À frente de uma equipe de oito profissionais, o jovem Schariff Moysés, na época com cerca de 30 anos, deu início ao procedimento que duraria três horas. A cirurgia, incentivada pelo então diretor do hospital e médico oncologista, Afonso Bianco, contou com a participação de recém-formados da Escola de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
A válvula utilizada era de tecnologia nacional, e até a instalação do coração artificial do aparelho teve a colaboração de técnicos capixabas. Na época, o procedimento teve um custo próximo a 10 mil cruzeiros, sem incluir o valor destinado à equipe médica.
Ao fim da operação, o clima no hospital era de alívio e expectativa. A resposta positiva veio rápido: Luiza estava consciente e reagia bem. Poucas horas depois, ela já dava os primeiros passos, percorrendo cerca de 50 metros com o coração batendo em um ritmo regular de 86 pulsações por minuto. O boletim médico confirmava que a cirurgia tinha sido um sucesso, embora o cirurgião-chefe mantivesse a cautela, afirmando que apenas o tempo consolidaria o resultado.
Evolução
A chamada "troca de válvula" consiste na retirada de uma válvula danificada do coração para substituí-la por uma prótese artificial. A base da técnica se mantém a mesma até hoje, porém os materiais evoluíram, tornando-se mais seguros e duradouros, o que garante maior qualidade de vida aos pacientes.
Luiza Rodrigues sobreviveu por mais 15 anos após o procedimento, falecendo em 1986, vítima de um câncer.
Legado de um pioneiro
Décadas depois, Schariff Moysés relembrou o feito em uma reportagem para a TV Gazeta, sem esconder a emoção.
Esse foi o dia mais emocionante da minha vida. Nós começamos a cirurgia cardíaca no Espírito Santo e hoje já são milhares de doentes operados
A experiência consolidou nele uma filosofia que se mantém. "O médico tem que olhar nos olhos do paciente. Se ele não cura, precisa aliviar. Se não consegue aliviar, tem que consolar", destacou, ressaltando a importância da humildade e da conexão humana. Para ele, o profissional de saúde precisa, acima de tudo, 'ser especialista em gente'.
A coragem de Luiza e o pioneirismo da equipe do Dr. Schariff Moysés não apenas salvaram uma vida, mas abriram um novo capítulo para a medicina no Estado, permitindo que, desde então, milhares de outros corações pudessem continuar pulsando forte.
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Este conteúdo foi escrito por uma aluna do 28° Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação de Murilo Cuzzuol