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Crônica

O pouco caso dorme sereno no sofá da sala

Recentemente, eu também fui vítima de um imperdoável pouco caso. Muito mais que pouco caso. Vi meus sentimentos absurdamente ignorados, algo bem próximo do desdém, do “tenho mais o que fazer”

Públicado em 

09 abr 2023 às 00:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Pinóquio
Ilustração de crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Pouco caso é um sentimento que nos leva a ignorar tudo o que não vale a pena nesta vida. Ou melhor, tudo o que a gente acha que não vale a pena. A pose de bom moço dos nossos políticos me dá sono. O “remplus de sois-même” de cada presidente que tem nos assombrado me provoca um bocejo atrás do outro. A volta do Xou da Xuxa, também.
Falando como um mestre, um figurinha fácil aqui do bairro professorou nos meus ouvidos: “O oboé é um exemplo de instrumento musical muitíssimo injustiçado: pergunte a seus amigos que instrumento musical eles preferem”. E continuou a aula: “Esta é a lista-padrão: violão, cavaquinho, pandeiro, piano, saxofone, violino e, no caso da garotada, bateria. Já a imensa maioria franzirá os lábios, como um adolescente diante de um prato de sopa, se alguém sugerir o fagote. Ou o contrabaixo, o violoncelo, a clarineta, o trombone, a harpa ou a tuba. Mas no topo do desprezo seguramente estará o oboé. Pergunte então a eles se já viram um oboé na vida. Nunca viram e muito menos se interessarão em saber que a importância desse instrumento começa antes mesmo de um concerto. É o oboé que emite a nota de referência para a afinação de toda a orquestra e..."
”Chega!”, implorei ao chato. Acabei sendo mais claro ainda do que a elegância permitiria. Foi quando, solfejando um falso latim, da época do ginásio, deixei bem claro que cansei dessa história de oboé: “Ergo sunt bagus plenus!”
O pouco caso, tamanho GG, é aquele tipo de sentimento brabo que toma conta da sua alma sempre que pousa em seu ombro um incorrigível contador de piadas sem graça. Um castigo dos infernos. Assim que se ouve o imaginário apito que dará start ao seu dolorido show, ele já abre a cortina rindo. E não para nunca mais de rir. Ao final de cada piada, ele turbina o riso dando empurrões nos ombros do interlocutor. Assim como quem empurra um carro pra ver se ele pega no tranco. E se você não pegar a rir... ele repete a cena. Rindo. Manja? Coitado, mas ele nunca saberá que você sempre finge que não o vê nas feiras de sábado.
Recentemente, eu também fui vítima de um imperdoável pouco caso. Muito mais que pouco caso. Vi meus sentimentos absurdamente ignorados, algo bem próximo do desdém, do “tenho mais o que fazer”. O desprezo chegou bem perto do “se você quer um colo, bateu na porta errada".
Era um dia de semana normal, aproveitei que passava em frente à loteca e fui conferir o Bolão da Mega-Sena. Entrei na fila. Esperança zero, de sempre. Entreguei o bilhete da aposta para a atendente me dizer quantos míseros números eu havia acertado daquela vez.
Sempre sorrindo, ela conversava com a colega de trabalho a seu lado, ao mesmo tempo em que checava o meu bilhete. Sem mudar o tom de voz nem a expressão do olhar ela foi indiferente e fria ao dizer: “O senhor ganhou”. De repente o salão do Siribeira, na terça de carnaval, arrebentou meus tímpanos e assanhou minha alma. Então, com a voz trêmula, perguntei: "Quanto?!"
E a criminosa, filha do demônio, sem dó de mim: “Um real e setenta e oito centavos...”
Só não fui embora chorando porque não sou mais criança. Para ela, eu era mais um perdedor que não valia a pena.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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