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Humor

É sempre bom ter um maluco por perto

Cada vez mais me convenço de que, se o mundo fosse povoado apenas por pessoas caretas, que graça teria? Um mundo sem o doidão do Raul Seixas, de que serviria? E que água morna seria a nossa vida sem a sempre repetitiva Narcisa Tamborindeguy?

Públicado em 

15 jan 2023 às 00:15
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Ilustração da crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
A princípio pode parecer meio assustadora a ideia de conviver de perto com gente maluca. Mas é só dar um pouquinho de corda na memória saudosa e um sorriso gostoso vai iluminar o seu rosto. E nem precisa garimpar muito pra você se lembrar do primeiro maluquete da sua coleção: o coleguinha levado, o primeiro a soltar uma cabeça de nego no banheiro da escola. Matou de inveja a metade da turma. E de rir a classe inteira.
Mas nem todo maluco é um figuraça assim. É preciso tomar cuidado, ficar de olhos bem abertos com aqueles tipos que trazem no olhar uma indiscutível ameaça de que a barra vai pesar. São eles o doido de pedra, o louco varrido e o doido de encardir. Mas o resto da cambada é mamão com açúcar. São figuras curiosas, engraçadas, adoráveis até que vivem ao nosso redor.
Os brothers que fazem o tipo “louco por você”, “doidinho da silva” e “maluco beleza”. Uma turminha alto astral, sempre bem chegada à sua mesa e aos quais você seria incapaz de negar um gole no seu próprio copo de uísque. Pertencem a esse tipo imperdível de maluquetes aqueles que não deixavam pra depois a chance de tocar a campainha das casas, noite alta, e sair correndo. Ou quando sacristãos volta e meia escondiam o vinho do padre em cima da hora de começar a missa.
Ou aproveitavam, quando o professor rabiscava um problema no quadro negro, para meter uma das mãos no sovaco e fazer uma espécie de alavanca com o braço de formas a produzir um som semelhante a um flato. Com som estereofônico. Chocante, para a professora. Já para o miolo mole empreendedor e seus seguidores, uma comédia impagável. Adoráveis birutinhas!
E cada vez mais me convenço de que, se o mundo fosse povoado apenas por pessoas caretas, que graça teria? Um mundo sem o doidão do Raul Seixas, de que serviria? E que água morna seria a nossa vida sem a sempre repetitiva Narcisa Tamborindeguy? Puxando esse bloco aponto o abestado do caixa de padaria quando lhe pergunta, convicto de que você tem uma sacola de moedas no bolso, “o senhor tem dezoito centavos, para facilitar o troco?”
O julgamento que a vizinhança careta faz dos miolos moles é imprópria, indevida e, precisamente, invejosa. Claro que o meu ninho de amigos não abrigava nenhum fio desencapado que pudesse representar perigo para a sociedade. O nosso humor, as nossas farras, os nossos aprontos tinham a garantia dos aplausos... apenas de nós mesmos, confesso.
Éramos – há quem discorde – apenas uns rapazes latino-americanos, sem dinheiro no bolso, vindos do interior... E talvez por isso mesmo só nós conseguíamos enxergar a graça e o prazer de sair correndo atrás da camionete do fumacê, subindo a rua Sete de Setembro. Sempre à noite, a fumaceira escurecia ainda mais tudo em volta. E eram nesses momentos de eclipse quase total da rua que a galera, pulando e cantando, arrancava os calções e, nua, fazia uma farra dos diabos. Como se tivesse atrás de um trio elétrico proibido para menores. Participei desse bloco apenas uma inesquecível vez. Mas, por favor, não contem pra mais ninguém. Hoje em dia eu estou mais ajuizado. Levemente careta.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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