Como artesão, sou um zero à esquerda. Quase uma Regina Duarte. Na verdade, mando muito mal, como se diz por aí. Mas esse meu despreparo não foi por falta de um mestre. No currículo do curso ginasial, àquela época, havia uma matéria chamada “Trabalhos Manuais”. Tem tempo isso. Muito tempo.
Tempo em que no rádio fazia grande sucesso um programa chamado “Pergunte ao João”. Uma espécie de google analógico a serviço dos ouvintes da saudosa Rádio Jornal do Brasil (940 kHz). Uma mão na roda, meio lerda, mas que matava a pau. Escrevia-se uma carta com pergunta sobre qualquer assunto e o João (?) respondia ali pelo meio-dia.
De volta ao ginásio e preocupado em passar de ano, entrei de corpo e alma nos segredos de bem trabalhar a madeira. E lá fui eu buscando dar formas a umas pobres e insípidas andorinhas. Maldizendo um pedaço empenado de compensado, juntei a ele um molde em papel, uma serra tico-tico e fui à luta.
Depois de quebrar uma meia dúzia daquelas serrinhas e pedir a Deus pra morrer, consegui enfim visualizar o contorno do que seria uma andorinha. Mas era preciso três delas para então serem lixadas e pintadas de azul pra ganhar, no máximo, um mísero oito. E então levá-las para casa para pendurar na parede da varanda. Na rua em que morei havia pelo menos uma meia dúzia de varandas iguais.
Apesar da minha triste inaptidão para trabalhos manuais... não sei por que, mas neste exato momento tive a ligeira impressão de que um sorriso, levemente irônico, não disfarçadamente maroto, iluminava o rosto do cronista, meu bom amigo e fiel leitor, Alvaro Abreu.
Uma premonição, confesso, que certamente traduz a ponta de inveja que devo sentir de quem consegue dar brilho de ouro a várias coleções de bem trabalhados talheres de bambu. O colhereiro cachoeirense alia com genialidade as letras à sua grande competência artesanal. Mas deixa pra lá.
De volta ao meu artesanato. Apesar do meu despreparo, não sou autor de uma única peça. Não, senhor! Enchendo o peito confesso que, apesar de um legado singelo, sou autor de uma obra-prima. Concebida na infância, meus rebanhos verdes ganharam aplausos de sobrinhos e filhos miúdos. Aqui vai a receita: meia dúzia de maxixes, três palitos e nada mais. Parta os três palitos ao meio. Espete então as pernas e os chifres do animal. O rabo já vem no maxixe, como todos sabem. E então?
Deixa pra lá o escambau! Duvido que o Alvaro consiga fazer uma andorinha de bambu. Ele já me presenteou com umas lindas colheres, tempos atrás. Mas confesso que desconfio seriamente da sua preferência por colheres, e não por bois e andorinhas.
Essa escolha teria um duplo objetivo. Pelo menos para a colherinha da molheira. Como gosto muito de pimenta, estou diariamente me lembrando do Álvaro na hora do almoço. Claro que isso nunca passou pela cabeça dele, mas aquela colher, além de dosar o meu molho de pimentas, funciona como um competente marketing de oportunidade.