O meu exílio não fica no Mediterrâneo, onde puseram no castigo aquele imperador maluquinho. Não tenho coroa e cara de maluco, só carrego o fato de ter comprado um terreno no planeta Marte. Mas isso depois eu conto. Por enquanto, quero apenas falar desta triste internação a que fui condenado, no apartamento do Barro Vermelho.
As instalações são de boa qualidade. Eram melhores no início, quando das janelas dávamos de cara com o Convento da Penha, de plantão, nos espiando a distância. Mas felizmente hoje continuamos encantados com a rica seleção musical do amigo Francisco Moraes, vizinho de frente que, volta e meia, sublinha com o seu bom gosto o calor do verão e proporciona um bom aconchego quando sopra o vento sul. Nas tardes de sábado, ainda se ouve o “blém,blém,blém” do vendedor de quebra-queixo, batendo um ferrinho no disco de metal para anunciar que vem chegando.
Não conheço a Ilha de Elba. Não sei se Napoleão ficou mais ou menos bem acomodado do que eu. Mas prisão é prisão. Durante a ditadura, o regime militar me trancafiou por um bom tempo. Sem vista para o Convento, sem música do Chico e sem quebra-queixo. De formas que já tenho alguma experiência. Triste e dolorosa experiência. Mas a prisão de hoje é excepcionalmente mais suportável: tenho telefone, computador, televisão, Mônica - minha adorável vizinha - e Andrezza, minha querida nora, a me apoiarem no reabastecimento da despensa, além da companhia fiel e serena de Nazareth. Sim, meus filhos e minhas netas posso vê-los no Facetime a qualquer hora que eu queira. E o menos pior: quem me trancafiou aqui não foi um federal intratável, mas uma quase intratável e maldita virose.
Obedeço às recomendações e aguento firme. E me quedo muitíssimo impressionado com os 200 milhões de médicos que temos neste país. Todos os dias, recebo pelas redes sociais dezenas, centenas de recomendações, receitas e tratamentos para fulminar o vírus. Confesso que fiquei tentado a experimentar um chá de poejo com duas aspirinas, ao deitar. Mas não pude sair para procurar pelo poejo e também ando muito ocupado com um novo e trabalhoso encargo. Tenho passado boa parte do dia limpando o cocô de Edie, um cachorro recém-adotado, ainda no maternalzinho, mas que suja a casa com a competência de um pós-graduado. Ai, ai...
Mas voltemos a Marte. Em 1997, pedi a meu filho Pablo, que na época estudava na Califórnia, que procurasse a empresa “Lands of the Universe”, que anunciava nos jornais a venda de terrenos no planeta Marte, para uso a partir de sua colonização. O preço me pareceu bom e não relutei em comprar uma área, bem situada, com boas chances de valorização a médio prazo. De formas que tenho hoje arquivado comigo o Certificado de Registro de um terreno com quatro milhas quadradas de frente para o Mar da Tranquilidade, no belíssimo Planeta Vermelho. Uma pena não existir ainda um transporte regular e confiável para lá. Porque com estes políticos do Brasil de hoje e com esta pandemia assustadora, era mais que chegada a hora do “partiu, Marte!”