Pra onde quer que se olhe, tem gente flexibilizando. Do presidente da República passando por governadores, prefeitos, diretores de empresas e comerciantes em geral. Outro dia,uma rede social informava que uma boca de fumo carioca estaria flexibilizando o preço da maconha. Enquanto durar a quarentena, não cobrará pelo delivery. Como se vê, tá todo mundo dando um refresco pro pessoal. Daí então que eu, sem mais o que fazer nesse semiclaustro dos infernos, achei oportuno também abraçar essa nobre causa.
Como não trabalho com vendas e nem com ordens de serviços, resolvi experimentar flexibilizar alguns conceitos, ideias e práticas que venho carregando no embornal das minhas implicâncias. Quem sabe flexibilizando eu perca um pouco da fama de ser excessivamente crítico.
Pra começar, uma flexibilizada difícil pra chuchu: deixar de banda o incômodo que me causam os cantores sertanejos. Eles, não a música sempre igual. Não falo também das roupas, sempre iguais. Eles mesmos. Mas nada a ver com os agudos tremelicados. Dos astros propriamente ditos. Por que será que eles só cantam em duplas? Parecem gêmeos, zero univitelinos. Não, não farei mais comentários negativos sobre eles. Vai ver é só uma filosofia de vida, ou uma promessa a São Cosme e Damião. Daqui pra frente, “tamo junto”!
Tenho sido também um crítico severo dos comerciantes da cidade. De todos eles, sem exceção. Acho um absurdo que vivam tentando passar rasteiras em seus clientes. Ou eles pensam que ofertar um produto ao preço de R$ 58,80 não é para dar a impressão de que estão falando de cinquenta e poucos reais? Fala sério. Os valores estão sempre um pouco abaixo da dezena seguinte, dando a falsa ilusão de que o preço está mais em conta. Mas, flexibilizando, acho que ando pisando forte no exagerador. A culpa certamente é dos cartões. Antes deles ninguém teria troco para tantos centavos. Abaixo os cartões,então!
Em nome da sincera admiração que cultivo pelos mineiros, vou flexibilizar em 100% a minha implicância com nossos vizinhos. É claro que eles não entendem nadinha de mar. Guarapari tem mais de trinta lindas praias de águas claras, mas eles não conseguem levantar âncora da Praia do Morro. De jeito nenhum. “Ela é rasinha, né?...” me disse um dia um deles, enquanto catava conchinhas. Pois é, gosto é gosto. E assim sendo, não toco mais no assunto. Mas tomem cuidado com as arraias, viu?!
Volto e meia sinto vontade de pichar a parede de certos estacionamentos de lojas comerciais, mercadinhos e quetais por causa da absoluta falta de consideração comigo e com os da minha idade. A vaga para idoso é impiedosamente ilustrada com a figura de um velhinho debruçado sobre uma triste bengala. Mas graças a minha nova postura flex, não picharei os muros. Só não posso anular a minha praga que já rogada. Paciência.
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E, para finalizar, uma miniflexibilizada, válida por apenas um segundo. Para o (argh!) Recruta Zero pela suas reincidentes agachadas no mato nacional. Obrando desde o amanhecer, ele consegue tirar momentaneamente da tela os horrores desta maldita pandemia. Fim definitivo desta flexibilização.