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Crônica

Atire a primeira pedra quem nunca pisou na bola

Tão vergonhoso quanto um vacilo ao vivo é uma triste mancada só descoberta tempos depois. Novamente eu fui o protagonista

Publicado em 19 de Março de 2023 às 00:30

Públicado em 

19 mar 2023 às 00:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar Marcos Alencar
Crônica
Crédito: Amarildo
Todo mundo sabe que errar é humano. Mas, dependendo do vacilo, do mole que você dá, da pisada na bola, da vergonhosa mancada, da triste gafe cometida, errar é desumano. E nos deixa inapelavelmente com cara de tacho.
Nos primeiros anos de vida, a TV Gazeta engatinhava nos últimos andares de seu endereço na rua General Osório, próximo ao Parque Moscoso. Eu já tocava a produção de comerciais da emissora quando numa bela manhã a secretária de Cariê me convoca por telefone: “Doutor Carlos pediu pra você dar um pulinho na sala dele”.
Logo descobri que o assunto não era sobre trabalho assim que bati na porta e entrei. A convivência nos transformou em bons amigos. Cariê tinha, diante de sua mesa, uma bela mulher. Uma morena linda de olhos verdes, faiscantes. Não me lembrava de onde a conhecia. Ele, então me testou: “Conhece esta figura?” Eu fui mais rápido do que deveria: “Claro!”
E Cariê com cara de que estava se divertindo: “De onde?”. E eu mais rápido ainda: “Do Britz, acho.” Ele deu então uma risada gostosa e me apresentou a Maysa Matarazzo. E eu fiquei assim, com cara de sinhá mariquinha cadê o frade. Mais precisamente, meu mundo caiu... para usar o nome de seu maior sucesso musical. Maysa, uma das maiores cantoras deste país, andava ultimamente desiludida com sua vida amorosa e entediada com a carreira artística. Veio então para Vitória e procurou o amigo Cariê, pensando em trabalhar como contato comercial da Gazeta. Claro que essa ideia maluca não durou mais do que uma semana.
Tão vergonhoso quanto um vacilo ao vivo é uma triste mancada só descoberta tempos depois. Novamente eu fui o protagonista. Assim se deu a minha “melódia”: morava no meu prédio um primo de minha mulher cuja mãe, volta e meia, aparecia para uma visita. Era um final de ano e fui com minha família passar uns dias em Iriri.
Passado o Natal, voltei sozinho pra Vitória pois só eu não estava de férias. Chegando em casa, encontrei, jogado no chão, do lado de fora da porta da cozinha, um envelope pardo. Abri e estranhei o conteúdo. Tratava-se de um agulheiro. Uma cartela com uma grosa de agulhas de vários tamanhos. Perguntei à faxineira quem teria deixado aquilo. Ela não soube dizer. Minha mulher não tem intimidade com costura. Muito menos eu.
Comecei a delirar: mistério... macumba, uma feitiçaria?! Quem, como, por quê? Liguei então para uma prima querida, espírita convicta, e pedi sua opinião. Ela não pensou muito para me garantir tratar-se de obra de gente ruim. E me orientou a tomar imediatamente algumas providências. A saber comprar um frango abatido, quatro fitas coloridas, duas velas (uma preta e uma vermelha) e buscar uma encruzilhada onde eu deveria deixar aquele “despacho”.
Aproveitei a hora do almoço e corri pra Vila Rubim. Comprei tudo e fui atrás de uma encruzilhada. Numa rua quieta, logo depois da ponte de Camburi, montei o circo. Correndo, porque havia o risco de eu ser flagrado. Acendi as velas e, quase fora de mim, danei a espetar as 144 agulhas (meu Deus!) na falecida penosa e me mandei correndo dali, ufa!
Semanas depois encontrei-me no portão do prédio com aquela simpática senhora. Nos cumprimentamos e ela: “ah, Marcos... por acaso vocês acharam um envelope na porta de casa?” Comecei a me apunhalar devagarinho. “Fui fazer uma surpresa pra meu filho e dei com a cara na porta. A faxineira disse que eles tinham ido à praia. Entreguei a ela o envelope e pedi pra deixar na porta de minha nora. Acho que ela se confundiu e pode ter largado na sua porta. Era pra minha neta.”
Daí pra frente não consegui nem ouvir e nem falar mais nada. Esquartejado emocionalmente por tamanho delírio, ainda hoje não consigo acreditar que eu tenha espetado 144 agulhas naquele bendito frango, ao meio dia, com sol a pino e no meio de uma rua... Vacilão!!

Marcos Alencar

Marcos Alencar Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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