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Crônica

A penúltima moda não larga do seu pé

Importante notar que, assim como o jambo, expressões populares também são perecíveis. O tempo passa e poucos se dão conta de que muitas expressões idosas já deveriam estar levando netinhas pra passear

Públicado em 

05 mar 2023 às 00:40
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Crédito: Amarildo
O uso de gírias e de tantas outras expressões populares é indolor e automático. Mesmo sem perceber essa mecânica, amigos transferem para a nossa conta pessoal cada trocado verbal que recebem por aí afora. E nós, papagaios que somos, mandamos a bola pra frente. Mas é importante notar que, assim como o jambo, expressões populares também são perecíveis. O tempo passa e poucos se dão conta de que muitas expressões idosas já deveriam estar levando netinhas pra passear.
Ainda se ouve muito por aí alguém despachando um chato com o secular “vai catar coquinho!” Um ótimo exemplo de penúltima moda. Essa direta no queixo já deveria ter recebido a extrema-unção. Recém-saído da maternidade, o chute atual na traseira de quem nos incomoda é muito mais eficaz: “Vaza!!”
A poética expressão usada para sair fora de uma enquadrada, seja uma inconveniência de um amigo sem noção, seja o convite amoroso de alguém já comprometido, o “sai de mim abacaxi, tomei leite” é outro exemplo, triste de doer, de penúltima moda. Só quem ainda acha o máximo aquela argolinha presa no nariz repete esse versinho bobo em cada esquina. Pelas ruas, nas praças, nos elevadores e nas casas de tolerância a resposta da moda é: “Qualé, meu irmão?! Tô fora!!”.
“É bebé? Mamar na gata você não quer!” Esse contra-ataque bobinho, usado por várias gerações e já há muito ultrapassado ganhou músculo em sua versão contemporânea. Fique atento, porém, ao pronunciá-lo. O “o” inicial deve ser prolongado. Assim: “Tá dooido??!”
A expressão original, que traduzia nosso espanto diante de um interlocutor vacilão, o “eu,hein?!”,é outra campeã de penúltima moda. Ainda anda de tamancos por aí. A grife Prada da moda atual é: “Então tá!” Obs: recomenda-se que após responder com desdém, um ligeiro sorriso de deboche (no capricho) deve completar a cena.
E o que dizer desse continho de fada intitulado “primeira-dama”? Inacreditável que ainda esteja em uso. Algo como um Renault Gordini, uma lamparina a querosene, uma cueca samba-canção. Essa passageira da Arca de Noé tomou suas primeiras mamadeiras em terras estadunidenses. Final dos anos 1800. Dizem que esse título foi inspirado nas prima donna das óperas italianas. Aposto que nenhuma das primeiras damas brasileiras souberam ou sabem dessa história. Mas representam esse papel vestidas de muito orgulho e com a indisfarçável alegria de quem tirou a sorte grande na loteria política.
Ora, ora... as prima donnas ficaram na saudade de seu admiradores. Uma ou outra ainda dá colher de chá num palco de teatro... Mas nunca dão entrevistas. São discretas.
É preciso, mais do que nunca, atualizar a forma de como tratar essas figuras, que nos chegam trazidas por seus maridos aos palcos do poder.
Quem sabe, Rainha dos Grandinhos? Quem sabe... porta-bandeira do primeiro escalão. Madame Mandona??!
A grande verdade é que o atual tratamento – primeira-dama - dispensado a essa vaidosa vizinha do poder já passou da hora de ser atualizado.
E sem perda de tempo. Primeira-dama é verdadeiramente a antepenúltima moda.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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