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Crônica

A ironia não machuca, só cutuca

O mundo está cheio de zombarias. Muitas de autoria de figuras notáveis e outras tantas de anônimos brilhantes. Como aquele ateu que acertou na mosca: “Não é só Deus que não existe. Tente chamar um encanador num final de semana...”

Publicado em 26 de Fevereiro de 2023 às 00:10

Públicado em 

26 fev 2023 às 00:10
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Ilustração da crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Acho que todos nós somos um pouco sacanas. Uns, os menos habilidosos intelectualmente, se avizinham da grosseria. Mas na invejável trilha da inteligência brilham aqueles que acertam sempre no alvo com uma pontaria de campeão. Até quando os alvos somos nós mesmos, eles merecem o lugar mais alto do pódio.
Juca Chaves conta que uma mulher foi ao médico e se queixou: “Doutor, eu me sinto obesa, flácida, minha pele anda muito seca... o que eu tenho, doutor?”. E o médico: “A senhora tem razão!"
O mundo está cheio de zombarias. Muitas de autoria de figuras notáveis e outras tantas de anônimos brilhantes. Como aquele ateu que acertou na mosca: “Não é só Deus que não existe. Tente chamar um encanador num final de semana...” E Mae West assina este conselho: “Tenha um namorado para um dia chuvoso e outro caso não chova”. Sobre esse mesmo assunto, o grande Nelson Rodrigues foi mais fundo: “A fidelidade devia ser facultativa".
Um respeitável ex-governador capixaba, já falecido, tinha um irmão boêmio, festeiro e amante de um bom carteado. Eis que uns amigos o convidaram para uma noitada de pôquer, em Colatina. Ele convenceu a sua mulher que iria num pé e voltaria no outro. Pegou o trem e se mandou. Noitada inesquecível com amigos, apostas e gargantas bem molhadas. Uma farrinha dos deuses. O dia amanhece e o nosso personagem vai até o correio e manda um telegrama para a esposa: “Perdi o trem hoje, amanhã e depois. Saudades, fulano de tal".
Mais dois exemplos de deboches na veia. Sou o sacana em um e o sacaneado em outro momento. No primeiro momento, chego a festa de aniversário da saudosa colunista Maria Nilce. Casa cheia, gente animada, garçons cuidando de não deixar nenhum copo vazio. Maria havia chegado da França e contava sobre essa viagem a um grupinho de amigos. Juntei-me a eles no momento em que, no alto da esnobação, ela falava de sua viagem a Giverny para conhecer a casa em que viveu Monet. “Fica a duas horas de Paris. Aluguei um carro com motorista e fomos batendo altos papos até chegar lá.” Foi então que mandei seu carro parar: “O motorista falava português?!” Irritadíssima, ela me mandou ir a “merde”. A única expressão que ela conhecia na língua de Monet.
Mais um aniversário. Esse do também saudoso amigo, o jornalista Luiz Eduardo Nascimento. Festa de arromba na casa onde ele morava na Ilha do Boi. Fim de festa e ele não queria nos deixar ir embora. Ficamos por último Nazareth, Eu, Tetê e o querido e saudoso Toninho Rosetti. Luiz, querendo nos segurar um pouco mais, se meteu na frente do nosso carro. Naqueles dias eu havia ganhado de presente uma Beretta. Sou totalmente “amor e paz”, mas a verdade é que arma acabou ficando no porta luvas do carro. Na brincadeira, passei a mão na Beretta e dei “ordem” (logo eu!!) para o Luiz sair da frente. Rimos todos da situação. E então nos despedimos.
Lucia, a anfitriã, recomentou que passássemos rápidos pela esquina pois havia lá um grupo de rapazes suspeitos. Foi nessa hora que Toninho, com a sua melhor e mais profunda ironia, murmurou: “ Bandidos armados de um lado e o Marcos com a Beretta do outro... vai ser um tiroteio pra ninguém botar defeito!”

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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