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Cotidiano

Pode apostar, um dia as fichas cairão

Leitores novinhos sempre dão trabalho para a gente explicar o passado analógico. Mas aí está. Os orelhões se foram e deixaram de herança a expressão que me serviu de muletas para reproduzir um flash de um diálogo que flagrei na rua

Públicado em 

05 fev 2023 às 00:10
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Ilustração da crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Tem muita gente a sua volta que não sabe de onde veio a expressão “a ficha caiu’. Uma inteligente apropriação do comportamento frio de uma máquina para traduzir a faísca elétrica que de repente acende o farol da sua compreensão. Para fazer uma ligação de um daqueles telefones públicos apelidados de orelhões era necessário comprar uma fixa metálica em bancas de jornal, tirar o telefone do gancho, inserir a ficha, discar um número e esperar a ligação ser feita. Momento em que se ouvia o barulho metálico da ficha caindo dentro do cofre do aparelho. E a ligação era então completada. Ufa!
Leitores novinhos sempre dão trabalho para a gente explicar o passado analógico. Mas aí está. Os orelhões se foram e deixaram de herança a expressão que me serviu de muletas para reproduzir um flash de um diálogo que flagrei ontem na rua. Foi aqui mesmo na Praia do Canto. Aproveitando a volta do sol dei uma paradinha na calçada da avenida Rio Branco e fiquei encantado com a nova ciclovia da cidade que já está quase pronta. Não só é uma bonita obra, mas ela também veio trazer um certo charme à rua onde a estão construindo. Os engenheiros (as), arquitetos(as) e demais profissionais responsáveis pelo belo trabalho merecem meus aplausos. E o dos ciclistas e, acredito, dos moradores também.
Conto-lhes agora o pedacinho do diálogo entre o casal de espectadores que, assim como eu, admirava a nova pista. Em verdade eles pouco prestavam atenção no que viam. Conversavam muito e só este trechinho, onde um deles relatava o que ouvira no noticiário, eu consegui gravar: “...Impressionante! O cara entrou na loja, às nove da manhã, matou a vendedora, passou a mão em um monte de celulares e saiu andando tranquilamente...”
Caríssimos leitores, vamos raciocinar juntos. Imaginem ser possível alguém matar, roubar e sair para uma calçada, onde pessoas caminham e ao ver a cena certamente ligarão de seus celulares para a polícia. A ainda a possibilidade de dar de cara com um vizinho de bairro, ou com uma patrulhinha... imaginem se alguém é capaz de “sair tranquilamente” dessa lambança? E em todos os noticiários se ouve falar da imaginária e absurda tranquilidade do criminoso. Ora, ninguém, mas ninguém mesmo, faz um malfeito desse e sai pela rua, destemido e tranquilo, buscando novas emoções. Para o crédulo casal e para um mundão de gente por aí, essa ficha não caiu.
Mas não se apoquente com isso. Por dia, milhares de fichas não caem por aí afora. Vai dizer, por exemplo, que você sabe em que hora os políticos trabalham? Lembrete: entrevistas, discursos e cochichos, pela Organização Internacional do Trabalho, não são considerados labor. Não chegam a ser folguedos, na realidade apontam mais para “la vie en rose”. Acho que já tá passando da hora de suas fichas caírem.
Eu mesmo tenho algumas fichas presas no orelhão dos meus pensamentos. Por exemplo: por que só os repórteres de televisão, ao encerrar uma matéria, recebem do apresentador (a) um “muito obrigado” como reconhecimento pelo seu trabalho? A equipe que o acompanha, neca de pitibiriba. Ô gente ingrata...

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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