A saudosa amiga Carmélia Maria de Souza, cronista das dores de um amor sem fim e grã-mestra de uma louvável boemia, assinou a autoria de um famoso bordão. O “ordem e progresso” de sua bandeira: “Esta Ilha é uma delícia!” Repetido sempre que se via diante de uma declaração canhestra de algum figurão da terra ou de uma atitude digna de literários golpes de uma palmatória corretiva. Como se percebe, a manifestação da cronista, ainda que feita no convívio de sua roda de amigos, nunca foi um aplauso. Muito pelo contrário, seu brado retumbante, à meia voz, era da mais fina ironia.
Lembrei-me dela e de seus deboches, quando, uma vez mais, flagrei ciclistas pedalando na travessia de uma faixa de pedestres. Era mais um de uma grosa e tanto de desinformados que repetem essa prática por onde quer que tenha uma via sinalizada. E é praticado por saudáveis ciclistas de distintos perfis.
Desde o quarentão, meio pançudo, na busca de um sonhado corpo atlético, de um garoto afoito para chegar à praia, de mocinhas saudáveis pedalando alegres e felizes, seguidas de algumas corajosas de unhas imensas e pintadas de cores vibrantes, como numa apoteótica alegoria ao fim do mundo.
Em cima de uma bike viajam sempre de mãos dadas o desejo, a alegria e a felicidade. Mas, sem que se sombreie o prazer dessas saudáveis criaturas, é preciso que alguém sopre o apito de ordem unida para lembrá-las de que há uma fundamental diferença entre pedestres e ciclistas. Pelo menos na hora de cruzar ruas movimentadas. Ciclistas, pedalam. Pedestres caminham.
O olhar enviesado para o motorista que tenha que retardar o seu trajeto face ao ciclista que tomou para si o conforto de uma faixa exclusiva é imerecido. Que ele desça do seu veículo e atravesse a faixa caminhando como qualquer bípede, é o que se espera de pessoas de bom senso. Pedalar na faixa ao lado de pedestres caminhando não pode. Carmélia, sentada na beira de um bar, debruçada sobre sua bengala de plantão, diante de cenas como essas, apertaria os olhos, antecipando o risinho de deboche, e carimbava o flagrante: “Esta Ilha é uma delícia!”
É pura verdade que bicicletas dão um up na vida de seus orgulhosos proprietários. E falo isso de selim, quer dizer, de cadeira. Quando a vida era risonha e franca ganhei de meu pai uma Monark, verde, aro 26. Um Mustang para um garoto da época. Ruas escuras não eram problema. As bikes tinham faróis. E foi pedalando a minha zero quilômetro que fui, aos poucos, descobrindo, que uma bicicleta é uma vitrine sobre rodas.
Quem está a pé percebe qualquer vacilo de quem pedala. E vejo que todos cometem um pequeno vacilo quando se excedem na força aplicada aos pedais. O esforço de cada um é gasto desnecessariamente a mais quando ele apoia o meio da sola do pé sobre o pedal. Como faz a grande maioria. Dessa maneira o impulso do veículo exige praticamente o dobro do necessário para se movimentar. Experimente usar a parte do pé próxima aos dedos. Menos esforço e mais velocidade. Aí sim, você verá que a sua bike é mesmo uma delícia. E sem ironia, desta vez.