Em cada pequena cidade do interior deste país as mães davam um show de competência. Tanto na cozinha, quanto nos quintais, pedalando uma máquina de costura e, principalmente, cuidando da saúde da filharada. O termômetro era o único instrumento médico, digamos assim, de que elas dispunham para ajudar na luta pela saúde da família. O resto de sua bagagem medicinal era tão somente o conhecimento herdado de família e... a iluminação divina.
Até os anos 50, a presença de profissionais de medicina nas pequenas cidades era muito precária. E, na maioria dos casos, em quase todas as residências, quem vestia o jaleco com invejável competência eram sempre elas.
Era delas essa brilhante receita para dar um fim à tosse interminável que não deixava a criança dormir. Bastava avermelhar a concha do feijão no fogo de uma lamparina, derramar nela um pouco de álcool e então embeber uma fralda e amarrá-la ao pescoço da criança. A boa noite estava garantida. Para todos.
Para dar um fim às verrugas de braços e pernas, elas batiam na porta da Flora Medicinal à procura de Tuya, um líquido da cor de café ralo. Pincelavam cada verruga após o banho. Duas ou três semanas depois, bye-bye verrugas.
Cidades pequenas, poucas e mal calçadas ruas, águas de chuvas empoçadas, crianças descalças... frieiras na certa. Um pedaço de um velho lençol rasgado em pequenas tiras, amarradas então em cada dedo do pé, junto a feridas. Tempo de cura: três dias.
Quando o moleque volta e meia reclamava de leves dores na barriga, elas sabiam: “São vermes! Oxiúros”. E toma de mastigar os caroços do mamão! Em menos de uma semana, o problema estava resolvido.
Comeu demais? Ficou empanzinado? Chá de boldo. É o que há. A garotinha andava muito irritada? Chá de camomila. Se o problema são gases, erva doce. E os malditos furúnculos?! Um belo de um emplastro de farinha de mandioca. Fim dos tumores em até dois dias.
Uma infusão de folhas de eucalipto resolvia as dores resultadas do que era chamado de “mau jeito”. Era só massagear. E uma irritante dor de ouvido podia ser resolvida com uma ou duas gotas de azeite de oliva aquecido. Violeta genciana combatia as aftas, rodelas cruas de batata inglesa, presas à testa por uma fralda dobrada, aliviavam uma persistente dor de cabeça. Corpo mole, o desânimo causado por uma gripe insistente, encontrava alívio no prato - quente e saboroso – de uma bem-feita canja de galinha. Espinhas eram secadas com uma modesta aplicação, antes de dormir, de pasta de dentes.
Prisão de ventre era mitigada com o consumo mais generoso de mamão. Já a diarreia pedia o consumo de banana prata. E água de coco, se você morasse ou estivesse veraneando no litoral, onde havia coco pra dar e vender. Dar é força de expressão, claro.
O triste reumatismo que não dava sossego às minhas pernas só teve fim depois de um verão inteiro “enterrado” na Praia da Areia Preta, em Guarapari. Um verdadeiro castigo para uma criança, mas uma mão na roda para quem quisesse voltar a brincar de pique sem sentir dor. Mas quando se “destroncava” o pé era preciso bater na porta de outra abençoada mãe: a benzedeira. Ela “passava o galho”... e pronto. Você voltava a sorrir.