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Crônica

O misto-quente morre de inveja do Croque Monsieur

O mesmo deve andar acontecendo em nossas cozinhas. Com a chegada da airfryer, o micro-ondas deve estar com a inveja na potência máxima

Públicado em 

13 ago 2023 às 00:20
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Crédito: Amarildo
O sanduiche misto-quente foi a primeira isca usada pelo comércio para levar o pessoal a mitigar a fome fora de casa. Uma receita simples e saborosa: duas fatias de pão de forma amanteigadas, uma de queijo muçarela e outra de presunto. Aquecido na chapa até o queijo derreter. O misto, na verdade, é uma ardilosa cópia do original francês, o Croque Monsieur. Mais elaborado e muito mais gostoso. Preparado com queijo Gruyère e de quebra ainda leva molho bechamel. O nosso misto tem, sem dúvida nenhuma, motivos de sobra pra morrer de inveja do requintado sanduiche francês.
A verdade é que a grande maioria das pessoas enxerga na inveja um pecado mortal. Acho uma condenação exagerada. Pelo menos quando ela é fruto único da admiração, a inveja é uma consequência natural. Uma consequência direta de um outro sentimento, este bem aceito por quase todo mundo: o orgulho. Explico: depois daquele belíssimo gol de bicicleta do Richarlison, a garotada, com justa razão, encheu-se de orgulho do craque conterrâneo. E, como consequência natural, passou a sonhar com o dia em que pudesse fazer um golaço igual. Ao final do jogo guardaram no bolso o orgulho e... uma doce pontinha de inveja.
Tenho uma amiga que confessa, numa boa, a colossal inveja que sente daquela cantora que voltou aos braços do ex-amor. Não porque gostaria de estar no lugar dela. A inveja oceânica que a inunda vem da maré alta de declarações diárias, nas redes sociais, jornais e revistas, onde a recasada repete incansavelmente – há meses! - que é uma mulher feliz. Minha amiga está convencida de que a felizarda só não é mais feliz do que Jesus, em sua manjedoura, recebendo a visita dos Reis Magos. Mas, infelizmente, não haverá perdão para a minha amiga. Inveja interesseira, a de roer unhas, tem lugar garantido na mesa do Coisa Ruim.
Agora, dando corda à imaginação, é possível conceber que em dezenas, talvez centenas de situações, a inveja está sempre presente. Nos tempos dos toca-discos, por exemplo, o estreante de 78 rotações teria tido um troço com a chegada do bolachão de 33 RPM. De tanta inveja acabou morrendo, o coitado. O mesmo deve andar acontecendo em nossas cozinhas. Com a chegada da airfryer, o micro-ondas deve estar com a inveja na potência máxima. E por aí vai...
Eu, que não sou melhor do que ninguém, também cultivo uma invejazinha maneira. Assim, no diminutivo. Tipo dosagem homeopática. Pode até parecer uma tolice, mas acho que você me entenderá. Veja bem, já repararam que nos noticiários das televisões, sempre que um repórter acaba de dar o seu recado, o apresentador lhe diz (e com um ar sincero!) muito obrigado?
Pois muito bem, trabalhei por muito anos em três emissoras de televisão, na área comercial. E nessas funções, com muitos mais acertos do que erros, jamais... jamais ouvi um agradecimento. Nem precisava do “muito”. Bastava um tímido “obrigado”. Qual o quê.. .neca de pitibiriba. Mas se me agradecessem eu talvez me comportasse como os repórteres de hoje. Não diria “de nada”. Sorriria apenas, como eles.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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