Nos territórios mais bem conservados do Brasil, como as florestas amazônicas, as serras do Caparaó e os manguezais capixabas, pulsa uma força silenciosa, mas transformadora: a bioeconomia de base tradicional e científica. Essa força tem nome, rosto e sotaque: é a sabedoria ancestral dos povos originários, ribeirinhos, quilombolas, caiçaras e agricultores familiares, agora aliada à pesquisa científica e à inovação verde. E é justamente essa aliança que ganha protagonismo internacional com a realização da COP30, em Belém do Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025.
A escolha da Amazônia como palco para a maior conferência climática do planeta não é só simbólica, é estratégica. Pela primeira vez, o mundo vai discutir clima de dentro da floresta, ouvindo diretamente aqueles que há séculos manejam os bens comuns com sabedoria, equilíbrio e resiliência. O encontro promete ser mais do que um palco de discursos: será vitrine de soluções enraizadas na cultura, na biodiversidade e na economia de baixo carbono.
Enquanto isso, aqui no Espírito Santo, experiências concretas mostram que a bioeconomia de raiz já é realidade. No Caparaó, comunidades vêm transformando o café agroecológico em produto premiado, exportado com valor agregado e identidade cultural. Na região costeira de Regência e Povoação, pescadores artesanais e jovens cientistas estão desenvolvendo cadeias produtivas com moluscos, algas e ouriços-do-mar, respeitando os ciclos da natureza e agregando conhecimento técnico ao manejo tradicional.
Essas experiências encontram eco nas ações preparatórias da COP30. O Consórcio da Amazônia Legal, com apoio de instituições como o IPAM, lançou uma estratégia centrada em cinco pilares: sistemas alimentares sustentáveis, energias renováveis, adaptação climática, governança fundiária e justiça climática todos conectados com a bioeconomia de base comunitária.
Ao mesmo tempo, lideranças indígenas da Bacia Amazônica, reunidas em Bonn, apresentaram uma pauta clara: acesso direto ao financiamento climático, reconhecimento dos territórios e protagonismo na tomada de decisões.
A ciência também se alinha. Iniciativas como o Tropical Forest Forever Facility (TFFF) pretendem mobilizar até US$ 125 bilhões até 2030 para garantir floresta em pé com base em soluções da natureza. Outro plano, apresentado por organizações da sociedade civil, propõe o investimento de pelo menos US$ 7 bilhões por ano na bioeconomia amazônica, priorizando comunidades tradicionais, produtos florestais não madeireiros, sistemas agroflorestais e cadeias produtivas sustentáveis. Isso pode e deve reverberar também em estados como o Espírito Santo, onde a Mata Atlântica ainda resiste e abriga populações com conhecimento de sobra para liderar esse movimento.
Entretanto, nem tudo é celebração. A construção da avenida Liberdade, uma estrada de 13 km em área de floresta nativa para dar acesso ao local da COP30, expôs os dilemas entre infraestrutura e conservação. Ambientalistas alertam para os riscos de fragmentação de habitats, impacto sobre fauna e violações ao zoneamento ecológico. É o alerta necessário para que o desenvolvimento que se propõe verde não repita os erros do passado, mesmo com a melhor das intenções.
A bioeconomia que queremos e precisamos não se constrói apenas com laboratórios, mas com escuta, partilha e respeito às práticas que sustentaram a vida por gerações. Que a COP30 não seja apenas um marco climático, mas também um reconhecimento global de que a floresta vale mais em pé quando sua economia é movida por gente que sabe cuidar dela.
Você já consumiu algum produto da floresta ou de comunidades tradicionais do Espírito Santo, como mel de abelhas nativas, café agroecológico ou cosméticos naturais? Acredita que a bioeconomia pode ser a chave para um futuro mais sustentável? Participe da nossa enquete e compartilhe sua experiência no meu perfil do Instagram @marcobravobio.