Magno Malta discursa durante convenção estadual do PL, em julho, em Vila VelhaCrédito: Thiago Coutinho/A Gazeta
O presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, tenta conquistar eleitores no Nordeste. No primeiro turno, ele alcançou 27% dos votos válidos na região, contra 67% destinados ao ex-presidente Lula (PT). Nesta quinta-feira (13), Bolsonaro foi a Pernambuco, terra natal do petista, pela primeira vez na segunda etapa da campanha.
Levou aliados, como o deputado federal reeleito Marco Feliciano (PL-SP) e o senador eleito pelo Espírito Santo Magno Malta (PL).
O presidente participou de dois eventos. Um, reservado para convidados, foi formado por uma plateia de lideranças religiosas, que se reuniram no Hotel Transamérica, no Recife. Depois, ele subiu em um trio elétrico estacionado próximo ao hotel e discursou por cerca de dez minutos para apoiadores.
Magno postou, no Instagram, um vídeo narrando a chegada a Pernambuco, ao lado de Feliciano e outros aliados, entre eles um pastor. Eles estavam dentro de uma van, aparentemente, a caminho do hotel. O senador eleito mandou um recado aos eleitores nordestinos.
Afirmou que artistas da região críticos ao presidente chamam Maria de prostituta e Jesus de "viado". Não explicitou quem falou isso ou tampouco onde e quando teriam ocorrido tais episódios.
"Precisamos que todos que amam a Deus, que amam a Bíblia e têm Jesus no coração e sabe de que útero sagrado nasceu o salvador do mundo, o útero de Maria. Prinpalmente aqui, no Nordeste, os chamados artistas do Ele Não vão à praca publica chamá-la de prostututa, chamar Jesus de viado (sic)".
"Algo que dói a nossa alma, nosso coração, que nos constrange tanto e viemos dizer aos nossos irmãos que isso precisa mudar", complementou.
Bolsonaro e apoiadores têm sido criticados pela movimentação nos eventos de celebração a Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida, São Paulo, na quarta-feira (12). Era dia da padroeira do Brasil. O presidente da República foi a uma missa na basílica que leva o nome da santa. No caminho, foi vaiado e também aplaudido.
Os seguidores do candidato à reeleição, entretanto, foram mais longe. Em grupo, acossaram um homem que usava camisa vermelha, vaiaram um religioso que citou o flagelo da fome na homilia, beberam cerveja ostensivamente em meio ao ato religioso e ainda ameaçaram a imprensa – integrantes da TV Vanguarda, afiliada da Globo, e da TV Aparecida, que é da Igreja Católica.
Talvez para reparar possíveis danos provocados na popularidade do presidente entre os católicos, Magno, que é evangélico, citou o "útero sagrado do salvador do mundo".
E logo em seguida atacou os artistas, alvos corriqueiros do bolsonarismo.
É uma estratégia controversa, ainda mais considerando os públicos sensíveis envolvidos: os eleitores do Nordeste e os que têm apreço pela figura de Maria. É devido a esse cenário peculiar que escrevi este texto.
O "estilo Magno" foi vitorioso no Espírito Santo, cabe ressaltar.
A coluna não encontrou, no Google, nenhuma referência a artista do Nordeste que tenha chamado Maria de prostituta ou Jesus de "viado". Foi constrangedor ter que fazer essa busca, aliás.
O resultado que chegou mais próximo foi a notícia sobre um video editado para fazer parecer que a cantora Daniela Mercury, que é baiana, chamou Jesus de gay.
Na versão original, Daniela Mercury está cantando a música "Tempo Perdido", de Renato Russo. É ele quem a baiana chama de gay, e não Jesus, registrou o G1, que classificou o vídeo manipulado como fake.
Um dos filhos do presidente da República, o deputado federal reeleito Eduardo Bolsonaro (PL-SP) havia postado o vídeo fraudulento. Se Magno se informou pelas redes sociais do parlamentar, talvez seja essa a fonte da história. Daniela até processou Eduardo.
A coluna questionou a assessoria do senador eleito onde e quando isso ocorreu e quais artistas, exatamente, falaram essas coisas sobre Maria e Jesus. Não houve retorno até a publicação deste texto, que vai ser atualizado se houver.
O ato do presidente na Avenida Boa Viagem, no Recife, foi esvaziado. Vídeos que registraram o ato enquanto Bolsonaro discursava no trio elétrico mostraram um público bem menor do que o espaço reservado para o evento.
Presidente Jair Bolsonaro discursa a apoiadores no Recife no 2º turno das eleiçõesCrédito: Reprodução
O senador eleito pelo Espírito Santo é popular nas redes sociais. Somente no Instagram, tem 1,4 milhão de seguidores. O vídeo em que ele cita os artistas do Nordeste que se opõem a Bolsonaro foi publicado nos stories, que somem em 24 horas.
Magno postou imagens ao lado do presidente e do evento com lideranças religiosas, no auditório do Hotel Transamérica. O senador eleito também esteve no trio elétrico, mas não publicou fotos ou vídeos do ato realizado na rua.
Em Pernambuco, no primeiro turno, Lula obteve 65,27% dos votos válidos, enquanto o atual presidente chegou a 29,91%.
Magno é nordestino, nasceu na Bahia, mas é radicado no Espírito Santo. Foi eleito vereador de Cachoeiro de Itapemirim ainda nos anos 1990.
A BATALHA PELO NORDESTE
Embora o maior colégio eleitoral do país seja São Paulo e o segundo, Minas Gerais, Bolsonaro tenta reduzir a desvantagem em relação a Lula no Nordeste. O PT é tradicionalmente mais forte lá.
Nem mesmo a ampliação do Auxílio Brasil, que Bolsonaro fez às vésperas do pleito, garantiu a ele um desempenho mais favorável. Isso mostra que, no Nordeste, o voto também pode ser ideológico.
O candidato a governador apoiado pelo presidente no estado, Anderson Ferreira (PL), não passou ao segundo turno, que é disputado por Marília Arraes (Solidariedade), apoiada por Lula, e Raquel Lyra (PSDB), que está neutra quanto ao pleito para a Presidência da República.
Bolsonaro, assim, ficou sem palanque local em um estado-chave. Pernambuco é o segundo maior colégio eleitoral do Nordeste, com 7 milhões de eleitores.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.