João Coser: "Nunca diria que a população de Vitória é de direita"
Pré-candidato do PT
João Coser: "Nunca diria que a população de Vitória é de direita"
Ex-prefeito da capital do ES foi confirmado pelo PT como pré-candidato a voltar a comandar a cidade. Em 2020, ele perdeu, no segundo turno, para Lorenzo Pazolini (Republicanos). A coluna o questionou sobre o que haveria de diferente em 2024
No sábado (28), ele concedeu a primeira entrevista sobre o assunto após a decisão da Executiva municipal do partido. Falou com a coluna no Pedra Azul Summit, evento da Rede Gazeta que reúne lideranças empresariais.
Coser comandou a Prefeitura de Vitória por dois mandatos, de 2005 a 2012. Tentou voltar a ser prefeito da Capital na eleição de 2020, mas foi derrotado, no segundo turno, por Lorenzo Pazolini (Republicanos). Em 2022, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Uma questão óbvia sobre a empreitada do PT em Vitória no ano que vem é: por que o resultado seria diferente do que houve em 2020?
E mais: por que a centro-esquerda deveria apostar numa candidatura logo do Partido dos Trabalhadores na capital de um Estado com forte sentimento antipetista?
O próprio Coser respondeu:
"(Em 2020) tínhamos um ambiente muito difícil, muito polarizado, com Bolsonaro presidente, um momento hostil contra o PT. Naquele momento, Lula estava condenado. Hoje, Lula é presidente da República, é uma diferença grande. O governador do Estado tinha outras candidaturas, como Gandini (Cidadania) e Serginho (Sérgio Sá, então filiado ao PSB). Eu não tive o apoio institucional e político de muita gente que, hoje, espero ter. E eu estava sem mandato, afastado da política, há muito tempo."
"(Em 2020), fui vitorioso, porque consegui passar por tudo sozinho, o PT sozinho. Chegamos ao segundo turno com quase 42% dos votos"
João Coser (PT) - Deputado estadual
"Tive o melhor desempenho (entre os candidatos do PT) nas capitais. E, em 2022, tive 58 mil votos, fui o terceiro mais votado para a Assembleia Legislativa do Espírito Santo."
Algumas considerações:
O PT não elegeu nenhum prefeito nas capitais brasileiras em 2020. Foi a primeira vez que isso ocorreu desde a redemocratização. No Espírito Santo, não emplacou nenhum prefeito.
Até em relação a vereadores ficou enfraquecido. Elegeu apenas dois nas principais cidades da Grande Vitória, um em Cariacica e uma em Vitória e hoje conta apenas com Karla Coser, filha do ex-prefeito, na Câmara da Capital.
Ou seja, aquele foi um ano, realmente, de derrotas históricas para o petismo.
Em 2022, além da eleição de Coser e da reeleição de Iriny Lopes na Assembleia, o partido obteve duas cadeiras na Câmara dos Deputados pelo Espírito Santo, com a reeleição de Helder Salomão, o mais votado do Estado, e a eleição de Jack Rocha, presidente estadual do PT.
Isso poderia indicar uma trajetória ascendente, mas cada eleição é uma eleição.
DIREITA X ESQUERDA
Falando agora do antipetismo, esse é um sentimento presente no Espírito Santo. Não é preciso nem números para atestar, pois é algo perceptível que paira no ar, mas vamos aos percentuais.
Em 2022, se dependesse apenas dos eleitores capixabas, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) venceria Lula (PT) no segundo turno por 58,04% contra 41,06%.
Em Vitória, isoladamente, o placar foi de 54,70% a 45,30%, denotando menos vantagem para o bolsonarismo, mas, ainda assim, com a derrota do maior líder do PT.
Se a eleição municipal for contaminada pelo debate nacional, em que a ideologia fala mais alto, apostar numa candidatura do PT em 2024 em Vitória não é um risco para a centro-esquerda e até algo benéfico para Pazolini — um político de centro-direita — que deve tentar a reeleição?
Para Coser, o histórico de votações na capital do Espírito Santo aponta que não.
"A população de Vitória sempre votou democraticamente, inclusive no PT. Eu fui prefeito duas vezes, e o Vitor (Buaiz) uma vez. Os demais prefeitos sempre foram de esquerda ou centro-esquerda: Paulo Hartung, Luiz Paulo (Vellozo Lucas), Luciano Rezende", lembrou o petista.
"Mesmo com a eleição do atual prefeito (em 2020), eu nunca afirmaria que a população de Vitória é de direita"
João Coser (PT) - Deputado estadual
"Mesmo que o Lula não tenha vencido as eleições (de 2022) em Vitória, nós sempre tivemos sucesso. Acho que em 2024 o país estará menos polarizado. Com os acertos do governo Lula, acredito que vamos ter muito mais força."
"A CIDADE ESTÁ ISOLADA"
Histórica e empiricamente, as eleições municipais são muito mais moldadas pelas necessidades mais prementes da população do que pelo debate ideológico, por vezes vazio de significado concreto.
O ex-prefeito de Vitória também aposta que isso vai se repetir em 2024. A ver.
Desde já, ele faz críticas à administração de Pazolini.
Na conversa com a coluna, Coser frisou várias vezes que a cidade está isolada, dado o perfil do atual prefeito, que fez oposição ao governador Renato Casagrande (PSB) nos dois primeiros anos de mandato e depois tentou uma aproximação institucional que não engrenou.
E, embora o Republicanos seja do Centrão, que ingressou no governo Lula em troca de cargos e benesses, no Espírito Santo o partido segue distante do Palácio do Planalto.
"A Grande Vitória está avançando e Vitória está paralisada. Os prefeitos de Vila Velha, Cariacica e Serra estão conseguindo aportes para grandes projetos. Temos que recuperar o tempo perdido"
João Coser (PT) - Deputado estadual
Bem, espera-se que os governos estadual e federal não deixem de investir numa cidade apenas devido ao fato de o prefeito não ser um aliado, pois quem sai perdendo é a população.
Mas é fato que, com uma proximidade política, as coisas fluem mais rapidamente, com proatividade e sem briga de egos.
João Coser e Renato Casagrande no Pedra Azul SummitCrédito: Cloves Louzada
Quanto ao "apoio institucional" que Coser espera, ele quer, sim, o endosso oficial de Casagrande no pleito de 2024. O PT, desde 2022, é parceiro da atual gestão estadual.
O governador, entretanto, tem vários outros aliados como pré-candidatos: o deputado estadual Tyago Hoffmann (PSB), o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania), o subsecretário Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB)... só para citar alguns.
Ao falar à plateia no Pedra Azul Summit, Casagrande, por diversas vezes, trocou, erroneamente, "2023" por "2013". Ao sair do palco da palestra, a coluna o ouviu brincar, com o ex-prefeito de Vitória: "É que eu estava pensando no Coser". O número do PT é 13.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, também como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 até 2021, quando assumiu a coluna Letícia Gonçalves.