Fachada da OAB-ES, localizada no Centro de VitóriaCrédito: Ricardo Medeiros
O atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – seccional Espírito Santo (OAB-ES), José Carlos Rizk Filho, foi reeleito para o cargo em novembro de 2021. O próximo pleito para decidir a direção da entidade vai ser realizado somente no mesmo mês de 2024. Nos bastidores e, em alguns casos, até publicamente, entretanto, a disputa já começou.
O debate público quanto à corrida eleitoral foi acelerado, entre outros fatores, após a OAB-ES processar a Caixa de Assistência dos Advogados do Espírito Santo (CAAES), órgão vinculado à Ordem.
A gestão de Rizk quer que a Caixa desocupe a área em que funciona, no térreo do Edifício Ricamar, Centro de Vitória. A própria OAB-ES está localizada no mesmo edifício. A Caixa de Assistência está lá há 19 anos e, por meio de contrato de comodato, não paga aluguel.
A ideia é alocar no térreo instalações e serviços ligados às comissões temáticas da OAB. "Ele (Rizk) diz que vai precisar do espaço para ampliar as comissões que ele criou, mas isso não é justificativa", diz o presidente da CAAES, Ben-Hur Farina.
Ben-Hur foi eleito na chapa de Rizk em 2021, os dois eram aliados, mas romperam.
"Meu Facebook e meu Instagram só têm elogios a Rizk e à gestão dele. Eu dei um pito nele um dia desses na frente de dois funcionários, em agosto. E ele ficou chateado, mas se esse fosse o motivo era só me chamar, me dar um esporro e a gente resolvia. Mas não é isso", afirmou o advogado à coluna.
"Desde antes da eleição (de 2021) Zé Rizk tinha conhecimento que eu viria como candidato, respeitando o mandato dele e respeitando se ele quisesse vir (candidato novamente)", revelou. "Aliás, todos os presidentes de subseções da OAB-ES sabem disso também".
"E ele disse várias vezes, em público, que não seria candidato à reeleição (em 2024)", complementou Ben-Hur.
"Eu não acreditava que ele ia entrar com essa ação. A Caixa não tem para onde ir. Se a Justiça determinar que a gente saia a gente vai ter que pedir um tempo para arrumar outro local e pagar um aluguel. Quem mais se prejudica é a advocacia", critica o presidente da CAAES.
Ele ressaltou, em conversa com a coluna, que não faz nem vai fazer críticas à administração de Rizk Filho. Questionado sobre o motivo de querer presidir a Ordem, elencou apenas seus próprios predicados:
"Estou com 61 anos. Fui secretário-geral do Homero (Mafra), conselheiro com Agesandro e Genelhu, presidente estadual da comissão de prerrogativas e hoje estou na Caixa. Sinto-me preparado e com jovialidade para fazer algo diferente para a advocacia. Não tenho projetos político-partidários".
As especulações sobre o fato de Rizk Filho poder ser candidato não ao comando da Ordem, mas a um cargo como o de deputado, por exemplo, são usadas por adversários para criticá-lo.
Rizk Filho nunca afirmou publicamente ter essa pretensão. Sempre que questionado, ele brinca, diz que a esposa não deixaria.
Erica Neves, que disputou contra Rizk em 2021, com o apoio do ex-presidente da OAB-ES Homero Mafra, também afirma desde já que vai concorrer novamente ao comando da Ordem.
Ela, embora não esteja alinhada com Ben-Hur, criticou a ação movida contra a Caixa de Assistência.
"Há perseguição política implantada pela OAB contra quem quer que seja que tenha vontade de disputar", apontou a advogada.
"É uma disputa interna de poder, deixando em segundo lugar os interesses da advocacia. Ele ajuizou uma ação contra o braço social da Ordem", criticou.
"Quero começar justamente por isso. O sistema democrático tem que ser respeitado, não se pode oprimir quem quer se candidatar", afirmou, ao justificar o motivo de pretender disputar a presidência da Ordem.
Neves diz que não está mais na mesma trincheira política que Homero: "Homero tem o caminho dele e eu tenho o meu".
Aliás, Homero, em uma solenidade pública, prestou solidariedade a Ben-Hur, postado à mesa ao lado dele.
"Vítima de uma ação cruel, desumana e infantil do presidente José Carlos Rizk Filho, que faz uma ação de despejo contra a Caixa, prejudicando toda a advocacia capixaba", afirmou o ex-presidente, olhando para o presidente da CAAES.
"Diante da advocacia criminal capixaba, presto minha solidariedade pessoal. O presidente do conselho seccional (Rizk Filho) não tem o direito de, por picuinha pessoal, pensando na sua sucessão, prejudicar a advocacia", complementou.
Um aliado de Rizk Filho nega qualquer viés eleitoral quanto à ação ajuizada na 3ª Vara Federal de Vitória e sustenta que o objetivo é apenas obter mais espaço para que a entidade exerça suas atribuições.
A Caixa de Assistência pode desocupar o térreo do edifício ou pagar aluguel para que, com o recurso, a OAB-ES, por sua vez, alugue um local.
E RIZK FILHO?
A coluna procurou Rizk Filho, que reservou poucas palavras para falar sobre todo esse episódio:
"Não vamos nos manifestar sobre ações ajuizadas. Confiamos no Judiciário e sem dúvida alguma haverá solução vinda dele".
Questionado sobre se vai disputar mais um mandato como presidente da OAB-ES, saiu pela tangente.
"Penso em trabalhar em prol da advocacia. A eleição só acontece em 2024. É bíblico, 'cada angústia no seu dia'", respondeu.
Até citou um trecho da Bíblia, para ser mais exato. "Não se preocupe com o dia de amanhã, basta cada dia o seu mal (Mateus 6:34)".
OUTROS POSSÍVEIS CANDIDATOS
Daqui até 2024 muita coisa pode acontecer. Há quem considere as declarações de Ben-Hur e Erica Neves, já se postando como pré-candidatos, como uma antecipação indevida do processo eleitoral.
Nos bastidores, até outros nomes são cotados. Se, ao frigir dos ovos, todos vão mesmo concorrer, aí é outra história.
Hoje especula-se que, a depender do desenrolar do cenário político interno, podem disputar:
Alberto Nemer, secretário-geral da gestão Rizk Filho (se Rizk não disputar mais um mandato)
Ben-Hur Farina, presidente da Caixa de Assistência
Kelly Andrade, presidente da subseção da OAB de Cariacica
José Antonio Neffa Jr, presidente da subseção da OAB de Vila Velha
Erica Neves, que ficou em segundo lugar na última disputa
A volta ou não de Homero Mafra à corrida é uma incógnita
Mas atenção: dos mencionados acima, apenas Ben-Hur e Erica Neves confirmaram à coluna que são pré-candidatos. Por isso, notem, trata-se de especulação.
A CAIXA DE ASSISTÊNCIA E O PROCESSO
À parte a confabulação eleitoral, há os dados concretos. A Caixa de Assistência dos Advogados do Espírito Santo é vinculada à OAB-ES, mas tem autonomia jurídica e financeira.
A entidade é mantida pelo repasse de fração das anuidades pagas pelos advogados à seccional, bem como pelo recebimento de percentual dos serviços prestados pelos parceiros conveniados à instituição.
A CAAES, como o nome sugere, presta assistência aos advogados, como o serviço de psicólogos, nutricionistas e orientações sobre como utilizar o processo judicial eletrônico, que vem sendo implementado no Judiciário Estadual. Advogados mais antigos têm certa dificuldade ao lidar com a nova tecnologia.
"Até o presente momento, foram 15.084 (quinze mil e oitenta e quatro) atendimentos, apenas no ano de 2022", registrou a CAAES em defesa prévia apresentada à Justiça Federal. Ao todo, 21 pessoas trabalham lá.
Em 2003, a OAB-ES e a Caixa assinaram um contrato de comodato que autoriza a entidade de assistência a ocupar o local por prazo indefinido e sem pagar aluguel.
Mas o mesmo texto prevê que a Ordem pode pedir o espaço de volta, dando um prazo de 90 dias para a CAAES. A OAB-ES enviou tal ofício à Caixa e ficou sem resposta.
Aí veio a ação judicial.
"Eu enviei vários emissários (após receber o ofício) porque somos entidades coirmãs. Ele (Rizk Filho) me desbloqueou esses dias (do WhatsApp) e pediu para a gente repassar valores para a OAB, pagar aluguel. Fiz reunião ontem (terça, dia 13) com a diretoria da Caixa e definimos que, para conversar, ele teria que desistir da ação. Ele respondeu 'vamos deixar na Justiça'. Isso é uma doideira sem tamanho!", narrou, e exclamou, Ben-Hur Farina.
Nesta quinta-feira (15), está prevista uma audiência de conciliação sobre o caso na 3ª Vara Federal de Vitória.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.