A tragédia que marcou a visita de Lula ao ES em 1999
Acidente de trânsito
A tragédia que marcou a visita de Lula ao ES em 1999
Presidente da República lembrou, nesta sexta (15), acidente que matou ex-deputado estadual e assessora de imprensa, em Sooretama. E reencontrou um sobrevivente
Presidente Lula inaugura o Contorno do Mestre Álvaro, na Serra, nesta sexta-feira (15)Crédito: Fernando Madeira
Logo que começou a discursar na solenidade de inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, na Serra, nesta sexta-feira (15), o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), avistou, na plateia, um dos fundadores do PT, Perly Cipriano. Lula, então, relembrou um acidente que ocorreu em Sooretama, norte do Espírito Santo, em 1999.
Foi uma tragédia, na qual morreram o ex-deputado estadual Otaviano Rodrigo de Carvalho e a assessora de imprensa Elizabeth Gomes de Lima. Perly sofreu queimaduras em 35% do corpo.
Eles estavam na BR 101, em um carro modelo Fiat Tipo, que integrava a caravana de Lula. Então presidente de honra do PT, ele estava em outro veículo, que não foi atingido, e tentou, junto com outras pessoas, socorrer os ocupantes do Tipo.
Perly, muito ferido, foi retirado. Beth, que era assessora de Lula, morreu no local. Otaviano também, mas ele estava consciente, preso às ferragens, e pedia socorro.
"Quando percebeu que os amigos não obtiveram sucesso, ele mesmo disse: 'Não tem jeito mais, companheiro, vou morrer'", registra reportagem de A Gazeta publicada em 12 de junho de 1999.
"O Perly pensava que era comunista, mas se tem um cara que é obrigado a acreditar em Deus aqui no Espírito Santo, é o Perly", discursou Lula, nesta sexta.
"Veio um caminhão e, de forma desgovernada, bateu no carro do Perly, estourou o tanque de gasolina e o carro deles pegou fogo. Eu ouvi as pessoas gritarem: 'Vamos sair daqui que o carro vai explodir'", contou o presidente, que lembrou a data exata da batida: 10 de junho de 1999.
"Eu encontrei com o Perly quando eu desci do carro, ele parecia um bife ambulante. O Perly estava cheirando a carne assada, com o rosto todo queimado", continuou Lula.
"O Otaviano não conseguiu abrir o cinto de segurança. Nós tentamos abrir a porta do carro com machadada. Não conseguimos e ele morreu dentro do carro, o Otaviano e a minha secretária Beth. Aquele foi, possivelmente, um dos momentos mais tristes que eu vivi na minha vida. Por isso, fiquei feliz de estar encontrando o companheiro Perly Cipriano, bonito, forte, rindo, sabe? E ainda com um boné vermelho na cabeça", afirmou o presidente, ainda no discurso.
Perly, depois, subiu ao palco da inauguração do Contorno e conversou com Lula nos bastidores.
"Fiquei muito tempo no hospital, tive que passar por vários transplantes de pele, da minha pele para mim mesmo. Foi terrível. Fui salvo graças ao (hospital) Dório Silva (na Serra). O Lula, na hora do acidente, ficou desesperado", lembrou Perly, em conversa com a coluna nesta sexta, após a cerimônia.
Capa de A Gazeta do dia 12 de junho de 1999Crédito: Reprodução/A Gazeta
O motorista do caminhão, de acordo com Perly, fugiu, a pé, do local do acidente.
Outros dois personagens desta história estavam no palanque, na Serra, nesta sexta: o deputado estadual João Coser (PT) e o governador Renato Casagrande (PSB).
Coser, que na época era deputado federal, dirigia o carro que transportava Lula no dia do acidente em Sooretama. E tentou ajudar Otaviano de Carvalho. "Ele estava lúcido e pedia para que tentássemos socorrê-lo. Tentamos tirá-lo, mas o fogo foi muito rápido. Foi uma sensação de impotência, assistindo a tudo e, na prática, sem poder fazer absolutamente nada", contou Coser a A Gazeta, ainda em 1999.
Casagrande, filiado ao PSB, era secretário de Turismo da Serra e também integrava o grupo. A caravana voltava de São Mateus, onde havia participado de um ato público contra a privatização da Petrobras e a favor da reforma agrária.
"Renato Casagrande estava a menos de 50 metros do local do acidente e também chegou a tempo de ouvir os pedidos de Otaviano. 'A moça (Beth), que estava no banco de trás, estava inconsciente. O Otaviano ficou pedindo socorro. Nós tentamos desesperadamente salvá-lo, tentando puxá-lo, arrebentar a porta com um machado, mas não teve jeito'", narrou Casagrande, na edição de A Gazeta de 12 de junho de 1999.
Perly Cipriano, de vermelho, encontra Lula durante inauguração do Contorno do Mestre ÁlvaroCrédito: Divulgação
Perly, o sobrevivente, não ficou todo esse tempo sem contato com Lula. Entre 2003 e 2010, por exemplo, foi subsecretário de Direitos Humanos do governo do petista.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.