A reabilitação de Zé Dirceu em evento do PT com Contarato
Aniversário do partido
A reabilitação de Zé Dirceu em evento do PT com Contarato
Ex-ministro, condenado no mensalão, subiu ao palco no aniversário de 43 anos da sigla e foi elogiado pelo presidente Lula. Senador do ES conversou com Dirceu, assim como outras lideranças do partido
Ex-ministro José Dirceu e os senadores Fabiano Contarato e Humberto Costa no aniversário de 43 anos do PTCrédito: Alessandro Dantas/PT no Senado
Ex-ministro da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-presidente do PT, José Dirceu tem uma longa história com o partido. Ainda antes da fundação da sigla, atuou no movimento estudantil, foi preso por tentar realizar o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Solto em troca da libertação do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, exilou-se e depois viveu na clandestinidade no Brasil, até fez plástica e adotou nova identidade.
Anos atrás, recordo-me de uma palestra do escritor Fernando Morais, em Vitória, em que ele duvidava que Dirceu pudesse ter se envolvido em qualquer ato de corrupção, principalmente em benefício próprio.
Não lembro as exatas palavras, mas Morais exemplificou que o ex-ministro carregava malas de dinheiro para abastecer o movimento contra a ditadura. E tinha postura irrepreensível.
Em 2012, José Dirceu foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a sete anos e 11 meses de reclusão, no regime semiaberto. Fernando Morais é o biógrafo de Dirceu. Certamente vai ter que dedicar páginas de um eventual livro a essa história.
O ex-ministro começou a cumprir a pena em 2013. Em 2016, foi beneficiado pelo indulto natalino, decreto assinado pela então presidente da República, Dilma Rousseff (PT), que registra os requisitos, pré-estabelecidos pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, para o perdão a condenados. O indulto é concedido todo ano, por todos os presidentes.
A pena de Dirceu no mensalão foi extinta. Mas, além de ter sofrido outras condenações, ele ficou marcado como aquele que foi apontado como o líder do esquema de compra de votos de parlamentares em prol do governo Lula (PT). O que sempre negou.
O petista histórico caiu no ostracismo. Não havia muitas pessoas dispostas a aparecer em uma foto ao lado dele.
Na segunda-feira (13), o Partido dos Trabalhadores completou 43 anos. Dirceu foi figura de destaque no evento de celebração do aniversário, em um centro de convenções de Brasília, e recebeu elogios de Lula.
No mesmo palco, estavam novos nomes da legenda, como o senador do Espírito Santo Fabiano Contarato, que se filiou em janeiro de 2022 e é hoje o líder do PT no Senado.
Contarato até trocou algumas palavras com Dirceu no evento de aniversário do partido.
Não como Lula, que fez um agradecimento público ao ex-ministro: “Companheiro Zé Dirceu, agradecer você, porque eu sei o quanto você foi solidário ao que eu passei”.
O presidente referia-se ao período em que ficou preso na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, após ser condenado na Operação Lava Jato. As condenações, posteriormente, foram anuladas.
A amizade ou a gratidão de Luiz Inácio Lula da Silva ao companheiro é legítima. Ninguém tem nada com isso.
O fato de, no exercício da Presidência da República, elevar Dirceu a um lugar de destaque no aniversário do PT, porém, é simbolicamente controverso e preocupante.
O PT, em vez de olhar para frente, com nomes como Contarato, escora-se em figuras do passado que evocam os piores momentos da sigla.
E pior: alia a imagem de novatos a essas figuras. O que o partido quer dizer com isso? Que os erros são tolerados e podem até ser repetidos?
Ex-ministro da Casa Civil José Dirceu no aniversário de 43 anos do PT, em BrasíliaCrédito: Alessandro Dantas/PT no Senado
É verdade que o PT não inventou a corrupção e tampouco as relações nada republicanas entre Executivo e Legislativo.
O governo Jair Bolsonaro (PL), por exemplo, cooptou parlamentares por meio do Orçamento Secreto.
Mas não se trata de qual corrosão institucional é pior ou provocou mais prejuízo. Nenhuma delas deve ocorrer, ser tolerada e tampouco minimizada.
Quando anunciou a filiação ao PT, Contarato, eleito pela Rede em 2018, avaliou o retrospecto do partido da seguinte forma:
"Os governos liderados pelo PT devolveram ao país credibilidade internacional, permitiram aos pobres cursar universidade, abriram os porões da ditadura com a Comissão Nacional da Verdade, democratizaram a participação da sociedade nas decisões de governo e geraram crescimento", escreveu, no Twitter, em dezembro de 2021.
"Seus erros foram investigados e devidamente punidos pela Justiça. Defendo que a lei vale para todos e tem de ser cumprida doa a quem doer. Seguimos junto aos brasileiros e brasileiras para, com esperança e força, vencer as trevas da ignorância que vitimam o Brasil", complementou o senador, na ocasião.
A coluna procurou o parlamentar, por meio de sua assessoria de imprensa, nesta terça-feira (14) para saber se ele tem alguma proximidade com José Dirceu e como avalia o passado e o papel do ex-ministro hoje.
Até a publicação deste texto, não houve resposta.
"Ah, Contarato não pode nem conversar com o cara casualmente num evento público?". Pode. Não é essa a questão e sim tudo o que foi escrito nas linhas acima.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.