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Leonel Ximenes

Há 100 anos, jornal já falava sobre o tráfico de drogas no ES

Periódico mostrava preocupação não apenas com os usuários, mas também com a ausência de políticas públicas para conter o problema

Publicado em 30 de Outubro de 2025 às 13:30

Públicado em 

30 out 2025 às 13:30
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

50kg de drogas apreendidas em Barra de São Francisco na noite dessa terça-feira (9)
Em setembro de 2025, 50 kg de drogas foram apreendidas em Barra de São Francisco: tráfico preocupa há mais de um século no ES Crédito: Polícia Militar do Espírito Santo
A questão do tráfico de drogas e suas consequências, evidenciada pela ação no Rio de Janeiro, nesta semana, já são debatidas há 100 anos, pelo menos. No jornal Diário da Manhã, espécie de Diário Oficial da época, de 8 de janeiro de 1924, um longo editorial abordou o problema da cocaína no Espírito Santo.
Com o título “A Cocaína”, o texto publicado há um século denunciava o avanço do consumo e a banalização da droga, que começava a se infiltrar nos hábitos sociais brasileiros. O editorial alertava para o “aparecimento de novos vícios introduzidos na sociedade”, apontando consequências graves, tanto físicas quanto morais, especialmente entre os jovens.
O artigo descreve o uso da substância como uma prática que corrompia costumes, incentivava o “gosto extravagante” e levava à destruição do indivíduo. O periódico mostrava preocupação não apenas com os usuários, mas também com a ausência de políticas públicas para conter o problema.
“Já por várias vezes temos feito apreciações sobre o aparecimento de novos vícios introduzidos na nossa sociedade”, dizia o texto, num tom de advertência moral e social.
No jornal Diário da Manhã, de 8 de janeiro de 1924, um longo editorial abordou o problema da cocaína no Espírito Santo
No jornal Diário da Manhã de 8 de janeiro de 1924, o editorial "A Cocaina" (na grafia da época) abordou o problema da droga no Espírito Santo Crédito: Reprodução/Hemeroteca Digital Brasileira
A redação do Diário da Manhã também lamentava a indiferença das autoridades e da população diante da expansão do vício. O texto destacava que “os tempos de hoje nos mostram o desenvolvimento de hábitos mórbidos e um gosto extraviado”, numa crítica direta à modernização dos costumes e à importação de práticas estrangeiras que, segundo o editorial, ameaçavam a “moral pública”.

DECADÊNCIA MORAL

O jornal ainda fazia uma associação entre a decadência moral e a perda de valores espirituais. Para o editorial, o uso da cocaína era sintoma de uma sociedade doente, marcada pela busca de prazer imediato e pela falta de responsabilidade individual. A cocaína era vista como um símbolo de degradação, “um dos mais vergonhosos produtos dos novos tempos”.
O tom moralista e alarmista do texto reflete o espírito de uma época em que o tema das drogas começava a emergir no debate público, ainda distante das políticas de repressão, de segurança e de saúde pública que seriam desenvolvidas no século seguinte. Mesmo assim, já havia ali uma clara percepção de que o problema ia além do consumo individual - tratava-se de um desafio social e civilizatório.
O editorial encerra com uma conclamação às autoridades e à sociedade para reagirem contra o que chamava de “vício moderno”, pedindo providências e uma “luta enérgica” contra os que traficavam e consumiam a substância.
Cem anos depois, o texto do Diário da Manhã soa atual. A diferença é que, agora, o país lida com um problema de proporções muito maiores.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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