A questão do tráfico de drogas e suas consequências, evidenciada pela ação no
Rio de Janeiro, nesta semana, já são debatidas há 100 anos, pelo menos. No jornal Diário da Manhã, espécie de Diário Oficial da época, de 8 de janeiro de 1924, um longo editorial abordou o problema da cocaína no Espírito Santo.
Com o título “A Cocaína”, o texto publicado há um século denunciava o avanço do consumo e a banalização da droga, que começava a se infiltrar nos hábitos sociais brasileiros. O editorial alertava para o “aparecimento de novos vícios introduzidos na sociedade”, apontando consequências graves, tanto físicas quanto morais, especialmente entre os jovens.
O artigo descreve o uso da substância como uma prática que corrompia costumes, incentivava o “gosto extravagante” e levava à destruição do indivíduo. O periódico mostrava preocupação não apenas com os usuários, mas também com a ausência de políticas públicas para conter o problema.
“Já por várias vezes temos feito apreciações sobre o aparecimento de novos vícios introduzidos na nossa sociedade”, dizia o texto, num tom de advertência moral e social.
A redação do Diário da Manhã também lamentava a indiferença das autoridades e da população diante da expansão do vício. O texto destacava que “os tempos de hoje nos mostram o desenvolvimento de hábitos mórbidos e um gosto extraviado”, numa crítica direta à modernização dos costumes e à importação de práticas estrangeiras que, segundo o editorial, ameaçavam a “moral pública”.
O jornal ainda fazia uma associação entre a decadência moral e a perda de valores espirituais. Para o editorial, o uso da cocaína era sintoma de uma sociedade doente, marcada pela busca de prazer imediato e pela falta de responsabilidade individual. A cocaína era vista como um símbolo de degradação, “um dos mais vergonhosos produtos dos novos tempos”.
O tom moralista e alarmista do texto reflete o espírito de uma época em que o tema das drogas começava a emergir no debate público, ainda distante das políticas de repressão, de segurança e de saúde pública que seriam desenvolvidas no século seguinte. Mesmo assim, já havia ali uma clara percepção de que o problema ia além do consumo individual - tratava-se de um desafio social e civilizatório.
O editorial encerra com uma conclamação às autoridades e à sociedade para reagirem contra o que chamava de “vício moderno”, pedindo providências e uma “luta enérgica” contra os que traficavam e consumiam a substância.
Cem anos depois, o texto do Diário da Manhã soa atual. A diferença é que, agora, o país lida com um problema de proporções muito maiores.