Vida de delegado botafoguense é duraCrédito: Amarildo
Dizem que há coisas que só acontecem ao Botafogo. Mas, se quiserem, podem incluir o delegado de Linhares como espectador e ouvinte de casos improváveis. Alguém duvida? Vamos aos fatos.
Dia de chuva fina e pouca gente para ser atendida na delegacia da próspera cidade do Norte do Estado. A rotina seguia tranquila até que o delegado foi acionado por uma servidora municipal que faz a triagem de atendimento no local: o dia que parecia ser de paz acabava ali.
Esbaforida, a servidora sobe as escadas correndo e conta ao titular da DP um fato inusitado: "Doutor, doutor, tem um homem ali embaixo querendo falar urgentemente com o senhor! Parece que a ex-mulher dele entrou dentro do carro dele e não quer sair de jeito nenhum!”
O delegado, então, resolveu dar prioridade ao caso pouco comum e pediu que a servidora mandasse o marido em apuros subir. O homem é convidado a entrar na sala do delegado e relata o que estava se passando, na sua versão. Segundo o cidadão, ele se separou, mas a mulher não aceita o rompimento da união. Ele afirma, inclusive, que saiu de casa e que já está vivendo com outra mulher, por quem está perdidamente apaixonado.
“Hoje ela entrou desesperada no meu carro, me agrediu, agrediu minha atual companheira e não sai do carro ‘nem por reza braba’”, descreve o ex-marido em apuros, reclamando da ex-companheira inconformada com a separação.
O delegado de Linhares, diante da aparente complexidade do caso, envia dois policiais civis e solicita que eles sigam para o local em que o veículo está e tragam o carro e a mulher para esclarecer tudo. Enquanto isso, continua a conversa com o reclamante, tentando convencê-lo a resolver o litígio de forma amigável e civilizada.
Na conversa, o doutor tenta tudo: sugere divórcio, divisão de bens, paz e aqueles conselhos tradicionais para evitar um mal maior. O diálogo fluía bem até que, 15 minutos depois, a mulher entra na delegacia, e logo começa a discussão entre o casal, na frente dos policiais.
“Este homem me traiu, doutor!”, acusou a ex-companheira do denunciante. “Ele estava casado comigo e com essa mulher ao mesmo tempo há meses, fazendo hora com minha cara”, acrescentou.
Constrangimento geral, o delegado, já aflito com aquela situação pouco comum, faz uma sugestão aos dois: “Calma, existe possibilidade de reconciliação do casal?”
“De jeito algum”, antecipou-se o homem. “Eu amo outra mulher agora e quero viver a plenitude desse amor, eu quero ser feliz.”
“Mas vocês têm 40 anos de casados, não é melhor pensar bem?”, insistiu o chefe da delegacia. Agora é a mulher que responde de forma enfática: “Não, doutor, agora eu que não quero mais, eu quero o divórcio”.
Mais um pouco de conversa e pelo menos sai um acordo para divisão de bens de uma forma que os dois aceitam. Pelo combinado, o homem irá arcar com as futuras custas processuais do divórcio e honorários do advogado.
Na mesma hora, ligam para a advogada e combinam tudo. Na saída da delegacia, em clima um pouco mais cordial, a mulher promete mandar todas as roupas dele pelos parentes e que o ex-marido pode ficar com uma televisão de 50 polegadas. Mas a ex-companheira avisa: não vai desistir da medida protetiva judicial.
Parecia tudo resolvido. Parecia (lembre-se que tem botafoguense no meio desta história). Na semana seguinte, a mulher procura novamente o delegado na DP e diz que a advogada não entrou com o pedido de divórcio e que ela está com pressa para resolver a questão.
O delegado, surpreso, ligou para a advogada e relatou o problema. A advogada, entretanto, diz que está tudo certo, e que só falta a ex-mulher assinar os papéis da separação. Informada pelo delegado, ela imediatamente vai ao escritório da advogada para resolver o problema. Parecia que, enfim, estava assegurada uma “separação feliz” e cordial, na medida do possível.
Mas essa história de ex-amor e separação iria render muito ainda. Meses depois da confusão na delegacia, o delegado se encontra com a advogada do casal, numa loja de departamentos de Linhares, e fica sabendo do final surpreendente do conflito.
“Doutor, o senhor se lembra do casal que queria se separar, da mulher que ficou dentro do carro do marido até a chegada da Polícia, do homem que queria ter a experiência do verdadeiro amor?... Pois é, desistiram do divórcio e voltaram, estão vivendo juntos novamente”.
Surpreso com o desfecho inesperado, o delegado comenta com a advogada: "Nada como um dia atrás do outro. Tem coisas que só acontecem comigo e com o Botafogo", conformou-se o policial alvinegro, acostumado com o sofrimento (no futebol, claro).
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.