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Empresário, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Política Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaço, aborda economia, inovação, infraestrutura e ambiente de negócios.

Persistência: sem ela, não avançamos nas empresas ou nos governos

Parece simples, mas com frequência vemos casos de lideranças políticas ou empresariais, jovens ou não, que desistem no meio do caminho ou mudam de rumo diante da primeira dificuldade

Publicado em 25/07/2021 às 02h00
Novas ideias no mundo dos negócios
Todo mundo pode ter uma boa ideia: o que faz a diferença é colocá-la em prática. Crédito: Divulgação

Persistência é uma palavra-chave para qualquer empreendimento de sucesso, que busque realmente a transformação e a evolução da sociedade, seja na iniciativa privada ou no setor público. Parece simples, mas com frequência vemos casos de lideranças políticas ou empresariais, jovens ou não, que desistem no meio do caminho ou mudam de rumo diante da primeira dificuldade ou de uma nova moda ou tendência, numa trajetória errática que não produz resultados, só frustrações.

Sem persistência, de fato, nada dá certo. Não existe milagre ou mágica: mudanças estruturais costumam ter seu próprio tempo de amadurecimento e execução. Os resultados normalmente não aparecem no curto prazo: eles exigem planejamento, liderança e persistência para que a missão não seja abandonada na primeira ventania.

No setor privado, o conselho de administração de uma empresa atua como um guardião do planejamento estratégico. Pode haver mudanças na presidência da empresa, o novo presidente pode formar seu time e imprimir seu ritmo, mas ele segue o plano traçado para o longo prazo e não dá um cavalo de pau, alterando o rumo dos negócios drasticamente.

No setor público deve ocorrer o mesmo: a agenda de longo prazo deve atravessar mandatos eletivos, passando a pertencer à sociedade, que fiscaliza o gestor público e cobra continuidade nas políticas públicas reconhecidamente acertadas.

Espírito Santo já tem certa experiência no ramo. O Plano ES 2025, construído há mais de 10 anos em parceria entre o governo estadual e a sociedade, promoveu uma agenda de desenvolvimento que resultou na melhoria dos indicadores sociais e econômicos, com avanços na educação pública, queda de homicídios, atração de novos investimentos e aumento da capacidade de investimento próprio do setor público.

Na educação, uma área que, por natureza, exige uma política de longo prazo, temos o exemplo clássico do município de Sobral, no Ceará, que virou referência internacional, sendo alvo de estudos até do Banco Mundial.

Há 20 anos a maioria das crianças de Sobral era analfabeta e o município estava na posição 1.366º no ranking do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Hoje o município de 200 mil habitantes está em primeiro lugar e seu modelo virou referência para todo o Estado do Ceará e para o mundo.

A receita do sucesso cearense não tem mágica ou mistério e pode ser replicada, com ajustes, para outras áreas.

Falar de persistência pode parecer algo ultrapassado, em um mundo em processo de mudança tão veloz, mas penso que a reflexão é pertinente. Mesmo os projetos mais inovadores, que estão transformando a nossa vida, dos hábitos de consumo aos relacionamentos, contaram com lideranças que acreditaram na importância de seus projetos e se dedicaram diuturnamente para que determinada ideia pudesse se concretizar num produto ou um serviço.

Basta olhar para inovações como o iPhone, o Facebook ou a Amazon, ou “ex-startups” que costumamos citar como PicPay, Wine, Shipp, Nubank, Ifood, Uber, Airbnb ou a Netflix. Por trás de cada case desses havia uma liderança determinada apostando em seu projeto. E sem persistência, esse projeto não sairia do campo das boas ideias. Todo mundo pode ter uma boa ideia: o que faz a diferença é colocá-la em prática.

O mundo do sucesso é feito por aqueles que conseguem criar, planejar e executar. E a execução exige persistência.

Alerto que muitas vezes nos deparamos com lideranças que não conseguem realizar entregas efetivas, e criam “nuvens de fumaça” para distrair potenciais interessados. Esses mudam prioridades com frequência, inventam novos produtos ou processos milagrosos, trazem soluções simples para problemas complexos, descartam esforços iniciais para recomeçar nova empreitada e justificam dizendo que aquela ideia mal explorada era coisa do passado... É preciso cuidado. Lideranças assim costumam ser carismáticas e hábeis na comunicação, mas vazias em persistência e capacidade de realização.

Cito também aqui um exemplo próximo de mim, do empreendedor Sérgio Rogério de Castro, que tem uma vida repleta de exemplos de persistência, tanto no âmbito empresarial como na representação setorial, e agora à frente da iniciativa conhecida como Escola de Associativismo.

O assunto, associativismo, pode não parecer tão glamouroso, mas é de extrema relevância para que a sociedade evolua. A persistência que ele tem tido para fazer com que essa iniciativa ganhe repercussão e seja devidamente valorizada é digna de aplausos.

A Escola de Associativismo é uma organização sem fins lucrativos destinada a orientar associações empresariais, de bairro ou de hospitais filantrópicos (não sei se o leitor sabe, mas eles respondem por 50% a 60% do atendimento na saúde pública).

A EA já formou cerca de 1,5 mil lideranças, o conteúdo de seus módulos tem contribuído para a evolução das organizações e, por consequência, da sociedade, e agora ela está expandindo a sua atuação para outros Estados, como Santa Catarina, Goiás e Pernambuco.

Se olharmos com cuidado para histórias de sucesso, tanto no setor público como no privado, você, leitor, vai enxergar claramente o traço forte da persistência. Por isso, procure desenvolver essa característica na sua vida.

Cabe sempre ressaltar, contudo, que persistir não é insistir ou teimar: é preciso saber avaliar quando realmente uma ideia não vai prosperar por algum erro de cálculo ou falha no planejamento inicial. Persistir é contornar as dificuldades e seguir com determinação o caminho planejado, mesmo que os resultados demorem a aparecer.

A História do Brasil não é exatamente a de um país persistente em suas políticas públicas. O nosso maior problema, EDUCAÇÃO, só será resolvido com uma política pública apartidária e que ultrapasse mandatos, ou seja, uma política persistente. “Sou brasileiro e não desisto nunca” é um bom slogan, mas não espelha bem a nossa realidade, algo que podemos mudar, com escolhas corretas e lideranças comprometidas. E com persistência.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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