As incertezas sobre o mercado de trabalho no Brasil, a ausência de perspectivas e a política imigratória mais flexível adotada nos EUA pelo governo Biden têm levado a uma fuga de mão de obra especializada brasileira, o que põe em risco a nossa capacidade de inovação e o potencial de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias.
O assunto tem sido tratado em reportagens veiculadas na imprensa e é motivo de preocupação no meio acadêmico e empresarial. Em agosto, o jornal Valor Econômico registrou que a demanda pelo green card, o visto permanente para trabalhar nos EUA, subiu 36% em um ano.
A fuga de cérebros é um fenômeno antigo que tem se acentuado nos últimos anos. Além da falta de perspectivas no mercado nacional, especialistas também apontam como causa a redução do orçamento federal para a ciência e tecnologia, o que leva pesquisadores a buscarem emprego em outros países. O ministério do setor vem sofrendo cortes nos últimos anos.
Um agravante nessa migração de talentos é que ela leva exatamente os mais jovens, em plena capacidade produtiva. São os que receberam investimentos em sua formação no Brasil e, na hora da colheita, os frutos vão para nações estrangeiras.
O país está há 10 anos estagnado. Tivemos a queda de 4,1% no PIB no ano passado, devemos crescer 5% este ano, mas para 2022 provavelmente voltaremos ao patamar medíocre de crescimento de 1%. Infelizmente, não temos muito a oferecer às novas gerações neste momento.
O Vale do Silício, região da Califórnia que reúne 16 cidades, como Palo Alto, Saratoga e Campbell, reúne cérebros indianos, árabes, europeus, brasileiros e, claro, norte-americanos. E o crédito das inovações do Vale vão todos para os EUA. A diversidade cultural é apontada como uma das razões para tantas inovações começarem justamente por lá.
E nós, no Brasil, o que vamos fazer vendo nossos cérebros migrando?
Penso que o primeiro passo é reorganizar a casa, o que significa restabelecer a harmonia entre os poderes constituídos, retomar a normalidade institucional e prosseguir com o ajuste fiscal e a agenda de reformas estruturais. Seria um começo para recuperar a confiança internacional e atrair investimentos.
Essa reorganização interna seria fundamental para voltarmos a oferecer um horizonte para nossos jovens talentos.
Há dois anos estive na Suíça, para conhecer o seu ecossistema de inovação. Aquela Suíça que atraía capital do “submundo” para as suas famosas contas secretas ficou no passado.
Hoje a Suíça faz do seu capital um chamariz para novos talentos e possui fortes programas de atração de startups, para que elas desenvolvam seus projetos lá. Ou seja, o país atrai o talento e o empreendimento juntos, e em troca oferece acesso a crédito e ambiente de negócio amigável.
Por que o Brasil e o Espírito Santo não copiam esse modelo? O Espírito Santo, em particular, é referência em equilíbrio fiscal. Criamos um fundo, com recursos das indústrias e do setor atacadista, justamente para aportar em projetos de inovação. Temos um Fundo Soberano com os royalties do petróleo. Por que não usar essa potência financeira para seguir o modelo suíço e atrair talentos e startups?
Evoluir no ambiente de negócios também é fundamental para o Estado. Na semana passada o Estadão publicou uma reportagem que coloca o Espírito Santo na última posição no ranking nacional de dispensa de burocracia para atividades econômicas de baixo risco. Minas Gerais e Santa Catarina lideram o ranking. Obviamente isso não é bom para a nossa reputação.
Importante lembrar que o movimento da inovação é um grande atrativo de talentos, tanto na pesquisa quanto no desenvolvimento de projetos. No Brasil temos modelos consagrados fora dos grandes eixos econômicos, que estão ganhando cada vez mais espaço, como é o caso de Florianópolis e Recife. Com certeza existem lá ótimas práticas, que poderíamos replicar aqui. A MCI (Mobilização Capixaba pela Inovação) poderia acelerar essa agenda e dar mais pragmatismo às intenções.
O setor público também deve ter uma preocupação robusta com a atração de talentos para a sua gestão. Mesclar os talentos locais com os de outros Estados, buscando profissionais com conhecimentos específicos e de competência comprovada, ajuda a conferir velocidade às boas intenções dos governos. Precisamos ser um Estado mais aberto a esse intercâmbio. A sociedade só tem a ganhar.