Entre as crises em curso há algum tempo e que foram aguçadas pela pandemia da Covid-19, destaque deve ser dado à mais recente, ligada ao entendimento da importância da ciência. Está cada vez mais evidente a dificuldade de conversas minimamente inteligíveis entre quem se dedica a se aproximar da realidade a partir do saber sistematizado e aqueles que se pautam por dogmas.
Tentativas de superação dessa dificuldade precisam partir da explicitação de dois tipos de barreiras. A primeira é aquela de terraplanistas se exporem a evidências produzidas pela ciência. A segunda é a de pessoas capacitadas para o pensamento crítico conviverem com o autoritarismo.
Durante o regime autoritário vivido no Brasil entre 1964 e 1985 isso foi mais explícito no campo das chamadas ciências sociais, como filosofia, sociologia, antropologia, mais questionadoras da forma e do conteúdo do cotidiano e das estruturas que sustentam vários tipos de exclusão. Apesar dessa aversão ao pensamento crítico que caracteriza o autoritarismo, o regime de 64-85 era inspirado por uma doutrina de segurança que minimante assegurasse a soberania nacional.
Por isso entendia a importância das chamadas ciências duras como sustentáculo dessa soberania. Daí a importância dada a projetos que iam desde a pesquisa agrícola como fator de competitividade na produção de alimentos no país para o mercado internacional até aquela voltada para o uso da energia atômica para fins pacíficos.
E mais: entendiam o desenvolvimentismo como uma forma deliberada de superar as barreiras impostas pelos países mais industrializados a novos entrantes, como o Brasil.
Baseado em cultores da ignorância e oportunistas apegados aos ganhos fáceis e rápidos permitidos a quem se dispõe a fazer corretagem para o capital improdutivo, o autoritarismo que impera hoje é apologético do terraplanismo. Como se estabeleceu sob a égide do neoliberalismo, é cada vez mais repulsor do pensamento crítico em que se fundamentam as ciências.
Mais do que no regime de 64, o autoritarismo atual potencializa a fuga de inteligência por retirar dessa as condições mínimas de trabalho. Grupos de pesquisas com inserção internacional são desmontados por falta de recursos mínimos: bolsas para iniciação científica, para estudantes de mestrado e doutorado; verbas para manutenção de laboratórios, para apresentação de trabalhos. Enfim, falta um mínimo de entendimento por parte de financistas - que têm muita dificuldade para entender e nenhuma vontade de aprender - o valor do conhecimento para o progresso do país.
Tempos de desmonte rápido do que demanda anos para ser construído. Tempos de falta de oportunidade para o trabalho voltado para o interesse coletivo o que leva principalmente jovens altamente qualificados com mestrado/doutorado e mesmo experientes pesquisadores a buscarem países que valorizam o conhecimento como fator de crescimento econômico e inclusão social.
A volta ao autoritarismo é em si um retrocesso. Pior quando ele é permeado pela falta de um mínimo de inteligência que valorize o que o país tem de melhor: sua gente e sua natureza.