Passadas as eleições e às vésperas de um novo mandato, o país precisa retomar uma discussão inadiável: a implantação de uma política industrial consistente, como fazem as grandes economias do mundo, para enfrentar a concorrência global e recuperar a competitividade. A indústria precisa voltar a ocupar um lugar central na agenda de desenvolvimento. Para isso, porém, não basta formular programas ou definir setores prioritários: precisamos rever as condições macroeconômicas que, há décadas, limitam o investimento produtivo e favorecem o rentismo, como temos apontado neste espaço.
O Brasil precisa de uma nova estratégia de gestão fiscal, que avance além do modelo adotado nos governos Itamar e Fernando Henrique, na implantação do Plano Real. Esse modelo foi necessário naquele momento, mas acabou consolidando um ambiente de juros extorsivos. O ciclo de encolhimento da indústria coincide com essa política, baseada em juros altos e câmbio sobrevalorizado, que estimula as importações e mina a competitividade da indústria brasileira.
Um recente estudo acadêmico, produzido por economistas brasileiros e apresentado dias atrás em Berlim, em um fórum de políticas macroeconômicas, ajuda a entender o cenário. Intitulado “Industrial policy constrained by the macroeconomic regime”, ou “Política industrial condicionada pelo regime macroeconômico”, o estudo avalia o caso brasileiro e mostra por que programas como o NIB - Nova Indústria Brasil, lançada no início do atual governo, tiveram resultados limitados.
Produzido pelos economistas André Nassif, Carmem Feijó, Eliane Araújo e Paulo César
Morceiro, o estudo reforça o que temos dito: as políticas industriais adotadas até aqui foram condicionadas por um regime macroeconômico marcado por juros elevados e falta de coordenação entre as políticas monetária, fiscal e cambial.
Os números ajudam a ilustrar o problema: a participação da indústria no PIB caiu de 15,4% em 2000 para 11,8% em 2025. No mesmo período, a participação dos produtos manufaturados nas exportações recuou de 80,3% para 51,5%, enquanto os produtos primários avançaram de 18,5% para 48,3%. É a chamada desindustrialização, ou primarização da economia, uma mudança estrutural que deveria acender a luz amarela.
Enquanto isso, o Custo Brasil só aumenta. No próximo dia 18, o MBC - Movimento Brasil Competitivo, em parceria com a CNI - Confederação Nacional da Indústria, lançará a atualização desse indicador. O custo, como sabemos, é o conjunto de ineficiências e barreiras burocráticas e econômicas que encarecem a produção local e prejudicam a competitividade do país.
Esse custo hoje é estimado em R$ 1,7 trilhão por ano, o equivalente a 19,5% do PIB - para se ter uma ideia, todas as promessas eleitorais do presidente reeleito, consideradas impossíveis no cenário atual, somam cerca de R$ 400 bilhões, ou quatro vezes menos do que o Custo Brasil. Os números ainda não estão fechados, mas tudo indica que a atualização mostrará elevação do valor.
Um novo governo é sempre um recomeço. É hora de rever esse modelo. O país foi
sequestrado pelo sistema financeiro, gastando R$ 1,2 trilhão somente com o serviço da dívida pública e sufocando a produção. Vejam a armadilha em que estamos: o Custo Brasil e o serviço da dívida, juntos, beiram R$ 3 trilhões. Uma fortuna escorrendo pelos dedos, enquanto o investimento produtivo perde espaço.
Precisamos rever esse modelo, em que a política monetária não conversa com a política fiscal. Nesse debate, merece atenção a contribuição do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, que propõe justamente um Conselho Fiscal e Monetário para coordenar expectativas e definir conjuntamente metas fiscais, de inflação e de juros para horizontes de quatro a cinco anos.
No artigo “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, Lara Resende propõe coordenar metas de inflação e juros, estabelecendo um intervalo para a taxa básica entre a meta de inflação, hoje de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, estimado em 5,5% (sendo 3% de inflação mais 2,5% de crescimento real. A transição começaria com uma redução gradual da Selic, ao longo de 12 meses, até cerca de 7,5% ao ano.
Vejo a proposta como uma provocação importante, que precisa ser aprofundada. Quando Lara Resende apresentou o Plano Real, junto com Edmar Bacha, Pérsio Arida, Pedro Malan e outros, também enfrentou críticas. Muita gente disse na época que não funcionaria e que era um plano eleitoreiro.
As reações imediatas, especialmente de economistas que atuam no sistema financeiro e claramente advogam em causa própria, devem ser vistas com reservas. São os grandes beneficiários dos juros altos há décadas. Os defensores desse modelo anacrônico deveriam explicar por que mesmo o Brasil precisa conviver com o maior juro real do mundo. É preciso romper com essa escravidão do pensamento do sistema financeiro, que domina o debate público e limita a discussão de alternativas.
Outra questão fundamental é diferenciar o custo do financiamento à produção do custo do financiamento ao consumo. O país precisa estimular o investimento produtivo em escala, para ampliar a competitividade da produção local. Com a Selic atual, fica difícil. O Brasil acabou se tornando um paraíso dos rentistas: em vez de investir na produção, muitos preferem deixar o dinheiro aplicado e ir para a praia. Uma distorção que cobra um preço alto de quem produz, gera empregos e busca desenvolver o país.
A retomada da indústria exige, portanto, uma mudança de prioridades. Não haverá política industrial consistente se o custo do capital permanecer proibitivo e a rentabilidade financeira seguir prevalecendo sobre a produção. O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, estabilidade e coordenação econômica, mas também precisa recuperar a capacidade de investir, inovar e competir. O novo governo terá a oportunidade de enfrentar essa agenda. Não podemos desperdiçá-la.