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Saúde

Fuja do "Fogo": é hora de encarar as doenças que não estão em quarentena

Diversos serviços no país estão observando uma alarmante queda na detecção de vários tipos de câncer. Como a doença não entra em quarentena, é bastante lógico supor que as pessoas de risco estão adiando seus exames

Publicado em 27 de Agosto de 2020 às 06:00

Públicado em 

27 ago 2020 às 06:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

Câncer de mama, autoexame
Autoexame da mama: todos os tipos de câncer devem ser investigados mesmo na pandemia Crédito: Divulgação
“Fear Of Going Out” ou a sigla Fogo, na língua inglesa, como é descrito o medo de sair quando levado ao extremo, traz enormes riscos a todos. Se por um lado todos deveriam evitar aglomerações e manter disciplina no uso de máscaras e distanciamento no trabalho ou na rua, porque o contágio continua (aliás, muitos estão se comportando como se pandemia tivesse acabado) por outro a vida não pode parar indefinidamente, em razão da Covid.
Desde o início da pandemia muitas pessoas estão submetidas a um prolongado isolamento com consequências danosas óbvias à saúde. A primeira delas é representada pelas repercussões na saúde mental das pessoas submetidas ao isolamento, ao desemprego, à crise econômica, à enxurrada de notícias ruins e às falsas notícias tóxicas. Têm sido detectados aumento de estresse, insônia grave, alcoolismo, ansiedade e depressão.
A vida sedentária também se agravou para muitos com importantes consequências. Estima-se um ganho de peso variando de 1-2 Kg até 10% do peso anterior à pandemia. Descobrimos que é possível viver com menor número de peças de roupa, até porque repousam no armário as que não cabem mais... calcula-se um importante aumento de até 5 horas/dia no tempo de tela, seja de celulares, seja de computadores. A redução da prática de atividade física contribui para o ganho de peso e interfere no risco cardiovascular.
Diversos serviços no país estão observando uma alarmante queda na detecção de vários tipos de câncer. Como o câncer não entra em quarentena, é bastante lógico supor que as pessoas de risco estão adiando seus exames de rastreamento por medo da pandemia. Essa conta virá...
Também é sabido que desastres aumentam riscos na população de eventos cardíacos. Medo, estresse, sedentarismo, aumento de tabagismo, tudo se acumula de modo tóxico para o coração. A taxa de hospitalização por infarto do miocárdio em New Orleans após o furacão Katrina aumentou três vezes, permanecendo mais elevada, por anos, após a catástrofe. Chamadas de emergência para paradas cardíacas aumentaram em diversas cidades no pico da pandemia.
O risco de se contaminar em uma clínica ou hospital pelo novo coronavírus é ínfimo, se comparado ao risco de não se diagnosticar e tratar um evento isquêmico cardíaco. Além de exigir uso adequado de máscaras e cautelas, está na hora de olharmos para as outras doenças além da Covid, que não estão em quarentena.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doenças Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaço, reflete sobre saúde e qualidade de vida

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