O Brasil está há várias semanas com perdas de mais de mil vidas por dia por Covid-19. No Espírito Santo, a análise das últimas semanas mostra que a pandemia parece ter se estabilizado na Grande Vitória, mas vem crescendo no interior. Estamos convivendo com muitas mortes, entre 20 e 40 por dia.
Na verdade, estamos exaustos. Fartos de um confinamento que se arrasta há quatro meses. O isolamento parcial à brasileira, com seus embates e confusões, já dura o dobro dos países europeus que o fizeram com mais sacrifício, união e disciplina.
Empresas, bares e restaurantes de amigos fecham as portas, e o número de moradores de rua aparentemente disparou. A miséria aumentou muito. Deveremos pagar mais em vidas e empregos pela nossa dificuldade em ter adotado uma conduta uniforme neste país empobrecido por discussões polarizadas e intermináveis.
Nestas horas escuras, multiplicam-se kits mágicos de vitaminas, antibióticos e remédios. As pessoas usam ivermectina, um bom matador de piolhos, mas cujos níveis aceitáveis para se aferir uma ação contra o novo coronavírus, de acordo com estudos in vitro, seriam pelo menos 100 a 200 vezes a dose tomada para piolhos.
A azitromicina vem sendo muito usada, para desespero de todos que sabem que vai aumentar a resistência do pneumococo a esse antibiótico, hoje já elevada em nosso país. A hidroxicloroquina vem sendo usada há meses, sem que se tenha conseguido gerar um bom trabalho de eficácia até hoje. Sem falar nas vitaminas para aumentar imunidade... Além de não haver qualquer comprovação disso, quando não há deficiência, é curioso que os casos graves de Covid-19 ocorrem com uma reação imune exagerada, uma tempestade de citocinas. É óbvio, portanto, que o problema não parece exatamente ser falta de resposta imune.
A mortalidade por Covid nos bons hospitais tem caído com duro aprendizado e boa ciência. É compreensível a aflição, mas meu temor é que todas essas soluções mágicas nos desviem do foco. Usar máscaras com rigor e manter um metro e meio de todos com quem não temos contato contínuo permitiria inverter rapidamente a curva de contágio, reduzir essa quantidade obscena de mortes e voltar à vida e atividade econômica tão necessárias.
Alguém disse que mortes na descida do monte Everest são tão ou mais frequentes que na subida, pelo cansaço.