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Pandemia

"Que dia é hoje?" é a pergunta dos dias monótonos de quarentena

Consola um pouco lembrar que já houve tempos piores. A última pandemia de semelhantes (piores) proporções ocorreu em 1918, quando o mundo estava em guerra

Publicado em 30 de Julho de 2020 às 06:00

Públicado em 

30 jul 2020 às 06:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento
Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento Crédito: Alexandre Chambon/Unsplash
Hoje é sexta ou segunda? Julho já acabou? Dias monótonos e confusos se arrastam neste ano de pandemia. O noticiário não muda muito, apenas se alternam regiões ou cidades mais afetadas. Trabalho em casa teima em violar os limites do descanso. Como médico, o compromisso me descobre seja sábado, domingo ou feriado. As estações do ano mal separadas entre nós ajudam a confundir o calendário. Dias quentes e ensolarados em julho dão sensação de verão.
Consola um pouco lembrar que já houve tempos piores. A última pandemia de semelhantes (piores) proporções ocorreu em 1918, quando o mundo estava em guerra. A gripe atingiu em cheio acampamentos militares e contribuiu para o fim do conflito.
A gripe de 1918 causou mais mortes que a própria Guerra Mundial. Matava principalmente jovens, entre 20 e 40 anos, aos milhões. Os jornais na época nada noticiavam por causa do esforço da guerra. Não podiam dizer que pelotões inteiros de soldados eram dizimados antes de embarcar. Navios que cruzavam o Atlântico viravam depósito de corpos. As manchetes da época eram “Nada há a temer”; “Não se apavorem’’; “É somente uma gripe”.
A epidemia, que segundo historiadores provavelmente surgiu em Kansas (EUA), só foi divulgada quando se alastrou na Espanha, país neutro na Grande Guerra. Virou, então, “gripe espanhola”. Já sem poder negar, autoridades pediam às pessoas para não sucumbirem à “histeria espanhola”.
Hoje muitos acusam a mídia de divulgar a nova pandemia em excesso. Desconhecem que a censura em 1918, com objetivo de preservar a moral nos campos de batalha, contribuiu para mais perdas de vidas que a própria guerra.
Quando o terror da doença se espalhou na América, muitos culparam agentes alemães pela disseminação. Até as aspirinas da Bayer foram investigadas. Americanos de origem alemã foram perseguidos. Os médicos no desespero tentavam de tudo.
A “Directoria do Serviço Sanitário” na época recomendava “sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigrammos por dia, de preferencia no momento das refeições”. Qualquer semelhança com crença arraigada na cloroquina e culpa da China nos dias de hoje não são mera coincidência.
Quem não conhece a História é fadado a repeti-la. Dias melhores virão com certeza. Há várias vacinas promissoras no horizonte. Mas isto é assunto para outra crônica.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doenças Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaço, reflete sobre saúde e qualidade de vida

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