Já perdi a conta das vezes em que participei da Romaria dos Homens (que prefiro chamar de Romaria da Família) na Festa de Nossa Senhora da Penha. Prefiro chamá-la assim, mesmo sabendo que há, dentro da programação da festa, uma romaria das mulheres que tradicionalmente é realizada no dia seguinte, em um horário e trajeto diferente (às 15h30 entre o Santuário de Vila Velha e a Prainha).
Chamo de Romaria da Família porque é cada vez maior a participação de crianças e mulheres na romaria que, neste sábado (26), percorrerá os 14 quilômetros entre a Catedral de Vitória e o Parque da Prainha, local da missa celebrada logo após a chegada da imagem da santa. E também porque reconheço a importância da família na sociedade. Afinal, como garantem os especialistas, os maiores males da nossa sociedade têm raízes na desagregação do núcleo familiar.
Sei também que a Romaria da Família é apenas uma entre treze outras que constam da programação da festa que, neste ano, completa 455 anos. Há, além da romaria das mulheres, também as que saem do interior do Estado (as maiores vêm de Cachoeiro, Colatina e São Mateus), a dos cavaleiros (que aconteceu no domingo passado), dos adolescentes (amanhã, 9h, no Parque da Prainha), dos militares (hoje, às 14h), a motorromaria (domingo, às 8h, saindo de Viana), a remaria (também no domingo, às 7h30, saindo da Praia do Ribeiro), as dos ciclistas (na segunda-feira, saindo de Camburi, às 7h, e Cobilândia, às 8h) e a dos conguistas (segunda, 8h, no portão do Convento), entre outras. Mas considero a Romaria da Família o ponto alto da festa que também inclui o oitavário e outros eventos.
A Romaria da Família é emocionante do início ao fim. A saída da imagem, ao final da missa da Catedral de Vitória, é cercada pelos romeiros, a maioria com velas acesas nas mãos e entoando cânticos de louvor. A imagem é acompanhada em todo o trajeto e, ao longo da caminhada, grupos de orações ampliam a quantidade de participantes. A chegada da imagem ao Parque da Prainha se dá cercada dos aplausos de cem mil pessoas.
Tenho amigos que dizem que deixam ao longo da caminhada da romaria as suas amarguras, frustrações, problemas e mágoas que atormentam o coração. Certamente aproveitam esses momentos para refletir sobre a vida e o rumo que desejam dar a ela. Viram páginas, encerram capítulos, fecham ciclos. Outros, também fazem pedidos e, através das orações, ganham forças para vencer os obstáculos.
Acredito, contudo, que a maioria vá à romaria agradecer as graças alcançadas. Agradecer o que foi conquistado, a dor amenizada, a aceitação das perdas, o perdão concedido e recebido, a oportunidade do recomeço. Agradecer a porta que se abriu quando outras se fechavam, a palavra amiga durante a solidão, o carinho que cura feridas. Agradecer pela vida que se renova e faz retornar sonhos que pensávamos que não teríamos mais.
Neste ano, a festa da Penha tem como tema “Maria, peregrinos da esperança”. É essa esperança, criada pela fé, que move a nossa vida. Como disse certa vez uma psicanalista, “quem tem fé não se sente sozinho”. É essa a fé que levará amanhã milhares de pessoas à Romaria da Família, como parte do terceiro maior evento religioso do país, pedindo à Virgem da Penha que lhes dê a mão e cuide dos seus corações, das suas vidas, dos seus destinos.